No dia de hoje recordamos a instituição da Eucaristia e do sacerdócio; por isso, estamos aqui reunidos para reafirmar nossas promessas sacerdotais. Nesta celebração, também abençoamos e consagraremos os óleos para os sacramentos do Batismo, Crisma, Ordem e Unção dos Enfermos. “Sacramento” significa sinal da ação salvadora de Deus. Lembra-nos que é Deus que age. Ele é o primeiro a agir em vista à salvação. Deus nos toca por meio de coisas sensíveis como: água, óleo, pão, vinho. Abençoaremos o óleo para as unções realizadas nas celebrações dos sacramentos. Qual o significado do uso do óleo? O óleo é usado em nossa alimentação; é usado como medicamento; os atletas são preparados com massagens de óleo pelo corpo. O óleo que penetra em nossa pele simboliza a ação do Espírito Santo que penetra em nossa vida.
O óleo está relacionado aos títulos messiânicos atribuídos a Jesus: a palavra de origem hebraica “messias” e a de origem grega “cristo”, ambas significam “ungido”. Jesus é o Ungido do Pai para a missão de nos comunicar a Palavra da vida e de nos resgatar do pecado, reconduzindo-nos à comunhão com Deus uno e trino. Também a palavra cristão, deriva da palavra Cristo. Isso nos recorda que todos nós, cristãos, somos ungidos no Batismo e na Crisma. Os sacerdotes, ou seja, os bispos e os presbíteros, são ungidos e consagrados pelo sacramento da Ordem, em vista à missão que recebem, de perpetuar a obra de Jesus Cristo.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, retomada por Jesus no evangelho desta celebração, nos diz: O Espírito do Senhor está sobre mim porque o Senhor me ungiu, enviou-me para levar a boa nova (o evangelho) aos pobres, para proclamar o ano da graça, ou seja, a salvação de Deus. Os sacerdotes, ungidos como Jesus – que é o Ungido por excelência – participam da própria missão de Jesus de anunciar a Palavra e conduzir-nos à salvação, ou seja, à comunhão com Deus. Na 1ª leitura, me chamou a atenção o fato de o ungido levar “o óleo da alegria ao invés da aflição”. Como podemos levar o óleo da alegria, do conforto da fé, da salvação aos outros e tantas vezes ficarmos nós reféns da aflição, da tristeza, do desânimo?
Antes de assumirmos o sacerdócio, a proximidade com Deus era nosso encantamento, era nossa alegria; tanto é que isso nos atraiu ao ministério! Depois de ordenados, o serviço a Deus se tornou nossa ocupação, nosso trabalho, a rotina de cada dia. E assim, muitas vezes, fonte de desgaste a minar nossas forças. Por que isso acontece? Acredito que pode ter várias causas, mas entre elas destaco o fato de muitas vezes ajudarmos os outros a se unirem a Deus, mas descuramos isso em nós. Passamos do mistério que nos atraia e era fonte de alegria e encantamento para o cumprimento do dever, do compromisso, da obrigação. Então, o que fazer, deixar a obrigação? Não!
Importante é não cairmos na armadilha de fazer só em função dos outros e nós mesmos não buscarmos a presença de Deus ou não nos alimentarmos do mistério que celebramos. Assim agindo, acredito, evitaremos a principal causa de desgaste. Quantas vezes exortamos à oração e à meditação da Palavra de Deus e nós mesmos nos dedicamos à uma oração formal, rasa, recitada com os lábios e com o coração distante de Deus, movidos mais pela obrigação de rezar que pela alegria de estar com o Senhor. Instruímos o agir dos cristãos para que seja pautado pela retidão da vida e pela coerência decorrente da fé, enquanto nós mesmos nos permitimos certas concessões, no mínimo muito questionáveis. Celebramos para o povo e não com o povo; fazemos pelos outros e não saboreamos o mistério celebrado. Cuidamos, e não nos cuidamos. Proporcionamos ocasião de encontro com Deus, mas nós mesmos não cultivamos nosso encontro com o Senhor. Assim, vamos nos esvaziando e nos distanciando de Deus e de seu mistério. Sem esse bálsamo, esse óleo da alegria, nos tornamos ressequidos.
Sem essa comunhão com Deus vamos nos tornando como árvores ocas que secam e continuam em pé (imagem usada recentemente pelo Papa Leão ao falar a seminaristas da Espanha). Para que tenhamos alegria e vida espiritual consistente, é indispensável que tenhamos raízes lançadas no mistério do amor de Deus. É significativa a imagem utilizada no Salmo 1, que apresenta a árvore plantada junto ao riacho; apesar das intempéries, ela frutifica por causa de onde estão lançadas suas raízes. Assim, com raízes no mistério do amor de Deus, experimentaremos também nós aquilo que procuramos proporcionar aos outros.
Para que o óleo da alegria não seja contaminado pelo fel da aflição e do desgaste no ministério, cultivemos essa proximidade, essa comunhão com o Senhor, que um dia nos atraíram a seu serviço. Não nos deixemos minar pelo desgaste da obrigação de quem só faz pelos outros e não se alimenta dos mistérios do Senhor. Essa comunhão com Deus é essencial para a vida cristã e o é ainda mais para quem age in persona Christi. Para manter a alegria, busquemos com todo empenho cultivar a proximidade ou melhor, a configuração, com o Senhor por uma vida coerente ao fato de sermos ungidos e consagrados ao serviço a Deus e ao seu Povo. Que o Senhor assim nos ajude.
Dom Wilson Angotti
Missa do Crisma – Catedral de São Francisco das Chagas
Taubaté, 02 de abril de 2026
