Do que era dividido, Cristo fez uma unidade

A Quaresma é ocasião oportuna para exercitarmos a necessária conversão diária e aperfeiçoarmos nossa vida cristã, a fim de podermos celebrar a Páscoa trazendo em nós a vida nova de ressuscitados em Cristo. Com esse intuito, nos exercitamos pela oração, pelo jejum e pela caridade. A liturgia nos auxilia com celebrações significativas e ricas exortações da Palavra de Deus. Contribuindo com essa caminhada de conversão a Igreja nos propõe, a cada ano, um tema para reflexão comum a fim de ampliar nosso horizonte, ultrapassando os limites individuais, a fim de que haja também aperfeiçoamento comunitário e social. A dimensão comunitária é essencial ao cristianismo. Ela é exigência decorrente do mandamento maior da fé cristã: o amor, que exige abertura a Deus e ao próximo. Assim superamos os limites do que é puramente individual. Com esse objetivo, a cada ano, enriquecendo a Quaresma, a Igreja realiza a Campanha da Fraternidade. Neste ano somos chamados a refletir sobre fraternidade e diálogo, compromissos decorrentes do amor. O lema motivacional vem da carta aos Efésios: Cristo é a nossa paz; do que era dividido ele fez uma unidade (Ef. 2, 14).

O cristianismo nasceu em um contexto marcado por divisões. Israel, país de Jesus, era dominado pelo Império Romano e, internamente, havia os que colaboravam com essa dominação, dela tirando proveito, e os que resistiam a ela. No âmbito religioso existia a divisão entre aqueles que eram observantes da religião judaica, como os fariseus e os mestres da Lei, em contraste com aqueles que eram menos observantes. Jesus e seus seguidores eram provenientes da Galileia, região com forte influência pagã, e população considerada não observante. De Jesus e de seu grupo chegou-se a dizer: “o que pode vir de bom de Nazaré”, ou da Galileia? (Jo.1,46). Foi movido pela mentalidade judaica que dividia o mundo entre Israel, povo escolhido por Deus, e os pagãos, que o apóstolo Paulo, na carta aos Efésios, disse que do que era dividido Cristo fez uma unidade. Paulo escreve para corrigir uma mentalidade elitista e exclusivista mostrando que Cristo veio para todos e, por todos derramou seu sangue. Ele veio para que todos, sem exceção, tenham vida e vida em abundância, vida plena, salvação. Esse é o dom que Cristo nos oferece; porém, acolher esse dom depende de cada um, mas a oferta é para todos. Em Cristo não há mais distinção entre judeu ou pagão, escravo ou livre, homem ou mulher, todos são um só em Cristo Jesus (Gl. 3,28). Não há nem pode haver discriminação. A todos é oferecida a graça da salvação. Todos são assumidos como filhos. Todos recebem a mesma herança. Internamente, na comunidade cristã, também houve divisões entre aqueles que diziam “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo, eu sou de Pedro”, e teve que haver correções e superação, pois todos somos de Cristo e Cristo não está dividido (cf, ICor.1,12-13)! Esta é boa notícia, este o ‘evangelho’: o dom da salvação é para todos, indistintamente. Porém, a todos que o acolhem, Jesus pede: converta-se e creia no evangelho.

Atualmente, também nós vivemos em um mundo marcadamente dividido entre dominadores e dominados, entre ricos e pobres, entre direita e esquerda, entre verdades e fake news, entre os que se orientam pela ciência e os que a negam ou a desconsideram, entre gente ‘do bem’ e aqueles que maquinam o ódio e promovem a divisão. No âmbito religioso, existem diversas crenças. Mesmo no cristianismo são tantos os segmentos, tantas igrejas, tantas seitas. Entre nós católicos também há divisões: conservadores e progressistas, movimentos ditos espirituais e aqueles de cunho mais social, simpatizantes de Bento XVI, o papa emérito ou do papa Francisco, etc. De fato, diante de uma tal realidade, a Campanha da Fraternidade nos chama à uma reflexão oportuna e necessária, ao mostrar que a fraternidade e o diálogo são compromissos decorrentes do amor e, portanto, exigências da fé cristã. Ninguém pode se furtar ao diálogo aberto, abrangente não excludente, pois esta é uma atitude de respeito e consideração pelo outro, nosso semelhante, e por quem devemos ter consideração e respeito, mesmo que não comunguemos de suas convicções. Isso é atitude cristã! Excluir este ou aquele de nosso diálogo, acusar, atacar e combater agressivamente o que não está de acordo com nossas convicções pessoais é favorecer divisões, é desconsiderar o Cristo, é conspirar contra o projeto do Senhor que veio para superar o que era dividido e unir a todos como irmãos, filhos do mesmo Pai. Quem fere a unidade e favorece a divisão não é de Cristo e não age pelo Espírito de Deus.

Dom Wilson Angotti Filho
Bispo da Diocese de Taubaté

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