Adriana Cintra: uma professora apaixonada pela arte de ensinar

Paulistana, filha de um pernambucano e uma mineira, Adriana, 42, mãe de trigêmios, carrega no sangue e na alma a determinação, a sabedoria e a fé de suas origens. Desde muito jovem sabia o que queria da vida: ser professora. Não perdeu o foco. Cursou Magistério, estudou Letras, fez mestrado e doutorado em Linguística Aplicada. Há 25 anos está nessa profissão tão bela e tão desafiadora.

O LÁBARO: Quando você decidiu que iria ser professora e o que ou quem a influenciou a optar por essa profissão?

Profª Adriana: Quando criança, brincava de dar aula para minha irmã Solange. Meu bom desempenho na escola levava meus coleguinhas a me pedirem explicações sobre o que estávamos aprendendo, principalmente em período de provas. Aos nove anos, ganhava “dinheirinho” dando aulas particulares na minha casa. Na Igreja, aos 13 anos, já era catequista, preparava crianças para a primeira comunhão na então Capela São José, no Bairro do Jardim Santana em Tremembé. Meu desejo de ser professora surgiu dessas atividades na infância e foi alimentado pelo incentivo de meus pais, que queriam que eu me realizasse profissionalmente, e pelo exemplo de sucesso de excelentes professores que eu tive, os quais sonhava ser quando crescesse.

O LÁBARO: Você é formada em Letras, com doutorado em Linguística Aplicada. O que a levou a fazer opção por esta área do conhecimento?

Profª Adriana: Meu amor à alfabetização e ao ensino de língua portuguesa e literatura. Um amor cultivado pelas aulas-espetáculo da querida professora Vera Lúcia Batalha de Siqueira Renda no curso de Letras da Universidade de Taubaté.

O LÁBARO: Como professora, você passou por todas as etapas de ensino: da Educação Infantil à Pós-graduação. Alguma dessas fases foi mais especial para você? Por quê?

Profª Adriana: Hoje sou professora universitária apenas. Mas transitei, ao mesmo tempo, pelos três níveis da educação fundamental (educação infantil, primeiro, segundo, terceiro e quarto ciclos, o que corresponderia à antiga pré-escola e às oito séries seguintes. Uma realidade nada particular, visto que, até hoje, vemos professores que vivem na mesma circunstância, isto é, dão mais de 40 aulas semanais, em diferentes unidades escolares. Haja fôlego! Não há fase mais especial ou menos especial. Todas foram enriquecedoras porque, para alcançar o objetivo de todas elas, me pus por completo: meu físico, minhas capacidades mentais e práticas, minhas emoções. Mobilizei criatividade e conhecimentos para lidar com imprevistos. Transformei-me na interação com o outro criança e o outro adulto. Resolvi muitos conflitos, fazendo escolhas permanentes. O trabalho docente consiste nisto: uma mobilização do professor do seu ser integral. E com isso ele se desenvolve e transforma seu entorno.

O LÁBARO: Em 2001, por conta de um projeto que você desenvolveu voltado para a educação infantil, você foi escolhida como finalista do prêmio “Professor nota 10”. Fale um pouco sobre esse projeto e o que significou para você ser finalista de um prêmio de abrangência nacional?

Profª Adriana: Meu nome entre os finalistas significou que meu projeto de leitura para uma turma de educação infantil, tema de minha dissertação de mestrado, não era apenas uma proposta, mas um real instrumento para o ensino de leitura, reconhecido por uma banca de avaliadores que tinha recebido relatos de experiências maravilhosas de professores de todo Brasil. Para seguir a carreira acadêmica, fiz Mestrado no Programa de Pós- graduação em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté, em que, hoje, sou professora e pesquisadora, com muita honra, pois lá encontro gente verdadeiramente comprometida com a formação dos professores, gente que transforma o conhecimento em instrumento na, pela, da e para a educação. Obtive o título de mestre em 2003, depois de defender a dissertação Desenvolvimento da competência genérica na prática de leitura de crianças não alfabetizadas como parte do processo de letramento, sob orientação da Profª Dra. Maria Aparecida Garcia Lopes Rossi.

O LÁBARO: Você tem uma longa trajetória como professora em instituição religiosa. Foi professora no Seminário Diocesano Santo Antônio durante muito tempo e já há alguns anos é professora na Faculdade Dehoniana. Qual a diferença entre exercer o magistério numa instituição religiosa e numa instituição laica?

Profª Adriana: Em 1997, comecei minha carreira no ensino superior como professora de língua portuguesa e de latim no Seminário Diocesano Santo Antônio, no Curso de Filosofia. Hoje esse instituto não existe mais, entretanto deixou-me muita saudade. Eu era a caçulinha do grupo de professores, e mais jovem do que muitos alunos. O tempo em que estive lá me ajudou a abraçar definitivamente a carreira acadêmica, fui motivada pela admiração que tinha pelos colegas professores. Outra experiência minha no curso de Filosofia acontece desde 2004 com a Faculdade Dehoniana. Nessa faculdade, sou atualmente professora de língua portuguesa, nos cursos de graduação em Filosofia e Teologia, e de metodologia científica, nos cursos de pós-graduação. Meu trabalho na Faculdade Dehoniana é muito gratificante porque é uma instituição que nos oferece ótimas condições favoráveis ao desempenho da profissão docente, a destacar as relações cordiais entre professor e aluno, o apoio pedagógico, o espaço físico agradável, entre outras. A diferença entre exercer o magistério numa instituição religiosa e numa instituição laica está no fato de que a maioria dos alunos de uma instituição religiosa entra na faculdade com um objetivo de vida traçado, ainda que provisoriamente, em muitos casos. Esse objetivo é uma motivação muito grande para a participação dele. Dessa forma, o professor de instituição religiosa tem mais facilidade de mostrar a importância social do conhecimento relacionado à disciplina que leciona. Há uma justificativa concreta. E isso colabora para a criação de um ambiente favorável para a aprendizagem, intenção do professor.

O LÁBARO: Você é uma devota apaixonada de Santa Teresinha do Menino Jesus. Como começou essa devoção e com o que mais você mais se identifica na santa de Lisieux?

Profª Adriana: Apaixonada mesmo! Dei à minha filha o nome de Teresa em homenagem à Santa Teresinha e a todas as irmãs carmelitas, principalmente as do Carmelo Sagrada Face e Pio XII de Tremembé. Foram essas irmãs que me apresentaram Santa Teresinha e seu pequeno caminho para a santidade. E foram essas irmãs que me convenceram, pelo próprio exemplo de vida, de que esse caminho é possível. De 1997 a 2006, visitei paróquias de nossa diocese e de dioceses em todo Brasil levando a mensagem de Santa Teresinha em forma de monólogo teatral, os quais eram, com base em História de uma alma, escritos por mim e revisados ora pela Madre Thereza Maria, ora pela saudosa Irmã Maria Luíza do Carmelo de Tremembé. Fazia as apresentações nas missas, caracterizada de Santa Teresinha. Tive a graça, em 1998, de atuar diante da Urna das Relíquias de Santa Teresinha em várias cidades do Brasil, convidada pelos padres responsáveis pelas igrejas que a receberam. Acredito que esse trabalho, sem querer ser pretensiosa, fez bem, de alguma forma, não só para mim, pois ainda hoje me perguntam “Você não é aquela moça que fazia Santa Teresinha?”. E, ao responder que sim, ouço: “Não dá para esquecer”. Hoje, deixo essa tarefa às outras garotas, pois já não tenho mais cara de uma moça de 24 anos (idade em que morreu Santa Teresinha). Continuo falando dela com mesmo amor, mas de outra forma.

O LÁBARO: Que análise você faz do atual Sistema Educacional Brasileiro?

Profª Adriana: O sistema educacional brasileiro tem muitos problemas. E problemas antigos, como bem mostra o documentário Pro dia nascer feliz, de João Jardim. Não conseguiria falar de todos eles agora. Então, destaco um dos problemas que meu grupo de pesquisa sobre o trabalho do professor, no Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté, tem investigado em seus estudos. Qual seria? Bem, no sistema educacional, estão as instâncias que formulam as diretrizes gerais adotadas por uma sociedade para integrar seus novos membros a ela. No caso do Brasil, a instância maior desse sistema é o Ministério da Educação e do Desporto, nas pessoas dos especialistas chamados para prescrever conhecimentos a serem ensinados a partir de conhecimentos científicos. Em relação a isso, notamos que as prescrições são confusas e generalizantes, como se uma coisa só coubesse a todos os “Brasis” que existem no nosso país. Daí, cabe ao professor, numa busca solitária e hercúlea, reelaborar continuamente as prescrições, readaptando-as de acordo com a situação em que se encontra, selecionando instrumentos adequados, não encontrando suporte do coletivo de trabalho. Quando isso acontece, dizemos que o professor tem a oportunidade de resolver conflitos e avançar. Entretanto, quando esses conflitos são muitos, frequentes e, dadas as condições, intransponíveis, o professor adoece e chega a abandonar seu trabalho. É preciso olhar para a saúde do professor. Há uma cultura de atribuir ao professor toda a glória do sucesso do aluno e toda a culpa do fracasso escolar. Acho que essa carga é muito pesada para os ombros do professor. É preciso ver que o professor está fazendo muito, apesar de…

O LÁBARO: Qual a sua opinião sobre a inserção da “Ideologia de Gênero” nos Planos Municipais de Educação?

Profª Adriana: Olha aí um exemplo do que acabo de falar. Chega às mãos do professor que ele tem de inserir a Ideologia de Gênero na escola e promover a inclusão dos alunos transexuais, que, como as outras minorias, ainda sofrem discriminação. Mas o professor pergunta: “Como?”. E a resposta é cruel: “Você como professor deveria saber”. Isso é, no mínimo injusto, pois o professor como todo profissional precisa de um modelo de atividade, precisa de orientações claras. Por que ele tem de ser o único profissional a inventar a roda todos os dias? E, quando o professor, brilhantemente, tem alguma ideia, sua voz não se faz ouvir no sistema educacional. Tratam o professor como um mero fazedor de tarefas.

O LÁBARO: Você é mãe de trigêmeos. Como foi para você essa experiência e como você concilia maternidade e magistério?

Profª Adriana: Posso trabalhar graças à ajuda de minha família, principalmente na pessoa de minha mãe, que é meu braço direito. Enquanto estou aqui, respondendo a essa entrevista, ela está lá em casa fazendo a sopinha para as crianças que estão na escola. Para os professores, a sala de aula não é um espaço físico, mas um espaço simbólico. A gente dá aula 24 horas por dia. Estamos fazendo compras pensando no exercício que vamos aplicar no dia seguinte. Estamos numa festinha de aniversário preocupados com o artigo que temos de publicar numa revista científica. Ser mãe me ensinou a viver bem cada coisa. Quando estou com meus filhos, vivo o momento. São raros esses momentos, mas são intensos. É evidente que o cansaço tem me impedido de fazer muitas coisas para minha família e para meu trabalho. Tenho fugido dos chefes, que graças a Deus são muito solidários. Mas, ao final do dia, volto meu olhar apenas para o que consegui fazer. Foi pouca coisa, mas fiz bem.

O LÁBARO: Ser professor é, antes de tudo, uma vocação. O que mais te realiza no magistério?

Profª Adriana: As pequenas coisas me realizam, como o fato de ser professora na faculdade de pessoas que também foram meus alunos na educação infantil. Essas pessoas, por estarem tão diferentes, agora adultos, não são reconhecidas por mim no primeiro dia de aula. Mas elas se apresentam dizendo: “Fui seu aluno há vinte cinco anos, e é um prazer ser seu aluno de novo”. Acho que isso me realiza, entre outras coisinhas.

O LÁBARO: No dia 15 deste mês se comemora o Dia do Professor. Que mensagem você deixa àqueles que abraçaram essa missão?

Profª Adriana: Deixo o trecho de uma prosa poética de Cecília Meireles: “É, certamente, uma grande obra o professor chegar a consolidar-se numa personalidade assim, segura e complexa. Ser ao mesmo tempo um resultado – como todos somos – da época, do meio, da família, com características próprias, energéticas, pessoais, e poder ser o que é cada aluno, descer à sua alma, feita de mil complexidades, também, para se poder pôr em contato com ela, e estimular-lhe o poder vital e a capacidade de evolução. E ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento. E ter imaginação para sugerir. E ter conhecimento para enriquecer os caminhos transitados.”

Por Pe. Jaime Lemes, msj

Fonte: Jornal O Lábaro edição outubro/2015

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