Cada vez mais, a Igreja Católica vai aprendendo a gerir suas rotinas de modo corporativo. É uma evolução boa, em certo sentido. Não à toa, um documentário do History Channel dizia que ela é “a maior e mais antiga empresa do mundo”. Em tempos de digitalização de processos, de mudanças na economia e de uma cultura da transparência, uma Igreja bem gerida é não só um sinal de credibilidade, mas um testemunho para um mundo sempre tentado às corrupções institucionais ou ao corporativismo desumanizador.
Ela é um CNPJ, sim… mas a serviço de algo maior: o Reino de Deus.
Por isso, ela não pode se embasar apenas na teoria geral da administração, nem nos procedimentos-padrão do terceiro setor e, muito menos, nos exemplos das mega empresas. Ela existe para anunciar a Boa Nova, para continuar o pastoreio de Jesus, para realizar o “aqui e agora” do Reino que só será pleno lá no céu. Logo, ela deve considerar, para usar a terminologia empresarial, os valores do Evangelho, a missão de Jesus Cristo e a visão da salvação para todos. Sucesso pop, acúmulo monetário, maximização de entradas e redução de saídas, burocratização… nada disso combina com a lógica do cristianismo transfigurador da vida. Toda máquina eclesiástica só faz sentido se estiver a serviço do algo maior que é a Vida Nova em Cristo, individual e coletiva.
Nesse sentido, uma escola de gestão para a Igreja é o exemplo daquelas pessoas que eu chamaria “de fronteira”. Elas conseguem ser tanto de Igreja como “do mundo”. Elas tem a qualificação, o profissionalismo, o compliance eficiente, o organograma de trabalho. Mas têm, também, a visão amplificada pela fé, a leveza dos que viram o Senhor, a urgência da caridade cristã, a esperança contra todo fatalismo, o entusiasmo com as pequenas vitórias, a capacidade de celebrar contra o produtivismo estéril.
Pessoas de fronteira é o que nós, católicos, precisamos! E quantas delas estão ali, em nossas missas dominicais, frequentando nossas paróquias. Só não receberam, ainda, a nossa pro-vocação: “vem comigo servir às causas de Jesus”.
Mais do que só ajudar em serviços endereçados, essas pessoas tem muito a nos ensinar. Algumas vezes, são elas que nos mostrarão o que não enxergamos: não vai dar certo assim; dá para comprar mais barato com a mesma qualidade; esse processo pode ser melhorado, etc. Outras vezes, elas nos lembrarão o nosso próprio papel: esses métodos não são cristãos; estamos rendendo, mas não estamos cuidando; essa atividade está bonita, mas não está evangelizando; temos trabalhado muito, felizmente, mas temos nos esquecido de rezar, tristemente.
Católicos de fronteira são um tesouro para uma gestão eclesial sadia.
Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia
