Viver em diferentes vocações

Neste mês, um tema merece nossa atenção. Conforme uma tradição da Igreja no Brasil, o mês de agosto é dedicado à oração, reflexão e ação nas comunidades sobre as vocações. Por isso, Dom Carmo João Rhoden (foto), bispo da Diooese de Taubaté e presidente da Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada escreve um artigo a respeito do tema.

Viver é sentir-se vocacionado. Recebemos a vida como um dom, e assumi-lo é nossa missão. A primeira e superior vocação do homem é a santidade. Nem poderia ser diferente. Deus é Santo e quer que o sejamos também. A beleza da flor não está no botão, mas na flor desabrochada. Assim é a criatura humana. É chamada a ser pessoa, a ser cristã: ser santa. Não chegar à plenitude da vocação é frustrar-se. Comprometer, totalmente, o sentido da vida é aborto: aborto existencial. A resposta ao chamado à vida não se esgota, portanto, na resposta meramente humana. Exige uma resposta pelo culto cordial a Deus. Requer a finalização da existência em Deus, ponto de chegada da criatura humana. Ali se encontra a beleza e a sublimidade do chamamento.

Deus chama, consagra e envia. Deus não precisa de conselheiros e assistentes ao trono. É felicíssimo na comunhão Trinitária. Apraz-lhe, no entanto, contar conosco, para levar à plenitude os múltiplos dons concedidos a cada qual, para o bem comum. Transforma para enviar: para a construção do Reino de Deus. Jesus para isto veio. Nós para isto vivemos, ou, sem isso, fracassamos. Eis nossa vitória ou derrota. Somos seres racionais, conscientes e livres. Livres, mas condicionados desde o berço. Por isso, há muito que fazer. Nos Evangelhos os Apóstolos são geralmente denominados: trabalhadores, (Mt 20,4) pescadores… (Mc 1,17) ou pastores. Jamais de aposentados. A alteridade faz parte do ser pessoa, a gratuidade é dimensão constitutiva do ser cristão. Existimos para…

Há o vocacionado leigo. Pelo batismo-crisma ele é chamado a ser sal da terra e luz do mundo. Cabe-lhe transformar o mundo em Reino de Deus. É chamado, antes de tudo, a ser santo, para tornar a sociedade sempre mais justa, solidária, amorosa e feliz. Pode viver sua vocação no matrimônio, pela família ou sem ela. Precisamos, na Igreja, urgentemente, de bons leigos. Tanto na economia, como na política, no mundo universitário, e, naquele político, os leigos são a grande maioria do povo cristão. Sem eles a Igreja tonar-se-ia anêmica em sua ação ministerial. Eu sempre agradeço a Deus pelos irmãos e irmãs leigos, entre os quais, há tantos santos e santas.

Há os vocacionados para uma vida religiosa consagrada. São aqueles que dizem, sim, à proposta de uma vida colocada, imediatamente, à disposição da evangelização, do testemunho e da busca da santidade, em comunidade. Desejam renunciar amorosamente às coisas, para serem mais livres para servir, despojadamente, ao próximo (pobreza), e buscar a perfeição pela vivência do voto de castidade. Não deixam de amar, mas pretendem amar a todos, em Cristo, sem direcionar seu amor a este (a) ou àquele (a). Querem imitar em profundidade a forma de viver de Jesus Cristo. Oferecem ainda suas vidas pelo voto de obediência, para poderem responder, às necessidades do Reino.

Em uma vocação Ministerial. São chamados para serem profetas do Reino, pastores do rebanho e homens do culto, por excelência. Cabe-lhes evangelizar. Ser missionários como discípulos. Devem partir de Cristo, vivendo a caridade pastoral na fraternidade presbiteral. Vivendo no imanente são sinais da transcendência, pela audição da Palavra de Deus, pela celebração da Eucaristia, buscando a santidade do Mestre, imitando-O, de perto, na construção do Reino.

Como se vê, as vocações são específicas, mas complementares. Deus que pela Divina Providencia tudo governa, não quer fazê-lo sozinho. Conta conosco. Felizes os que têm ouvidos para ouvir, coração para amar e vontade para servir. Ninguém precisa invejar a vocação do outro. Basta-lhe viver a própria. Somente assim, estará no lugar certo. É isto que o Senhor espera de cada um de nós.

Dom Carmo João Rhoden, SCJ, Bispo Diocesano de Taubaté e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada