Na última crônica, apresentei um drama moderno da vida da Igreja: faltam vocações à vida sacerdotal. Para exemplificar, contei que nossa Diocese só recebeu um ingressante ao seminário neste ano. Meu texto foi um lamento e um grito de desespero… uma prece pública e uma provocação em nosso trabalho de “chamadores” do Reino.
Mal acabava de ser publicado o jornal e o padre Gustavo, meu confrade de trabalho no seminário, leu meu texto e me apresentou um outro, de uma coleção bastante atual de livros sobre a formação de padres. A tese era completamente diferente daquela que eu, angustiado, apresentei em “Sobre vocações… de novo”. O padre me explicou a ideia do autor e fiquei impressionado em como fazia sentido: temos vocações! Só não as temos sob certas circunstâncias. Em termos filosóficos: a questão não é apenas numérica (quantas temos), nem qualitativa (porque temos bons padres e bispos); o que está em jogo são “as condições de possibilidade”. Dito de forma simples, a pergunta que deve ser feita diante da crise vocacional é: sob quais condições (ações, circunstâncias, estímulos, ambientes, etc.) podem surgir novas, numerosas e santas vocações?
Para o referido autor, as vocações abundantes estão brotando em expressões novas da Igreja: dioceses novas, institutos religiosos novos, novas comunidades. O exemplo que ele usa é bem interessante: o Velho Mundo europeu tem hoje missionários vindos da África, da Índia, da América do Sul. Se fomos evangelizados por eles, agora somos nós quem os socorremos. A imagem que ele usa é a do amor filial: as Igrejas novas têm por missão cuidar das velhas, como uma filha cuidando de sua mãe.
Na conversa que tivemos, padre Gustavo e eu falamos exclusivamente deste ponto, de vocações surgindo no novo da Igreja. O autor dá o exemplo, dizendo que as Igrejas do Novo Mundo têm vocações. Nesse ponto, um comentário precisa ser feito: em relação à Europa, somos uma nova Igreja, mas em comparação conosco mesmos, somos feitos de Igrejas novas e de Igrejas velhas. Não somos só o frescor de uma evangelização recente, pois já temos nossos cansaços do caminho, nossos desânimos da longevidade. O Brasil tem mais de 500 anos de história da Igreja. Nossa Diocese de Taubaté já tem 118 anos! É uma respeitável senhora, de muita experiência. Todavia, ainda em aprendizado, sobretudo diante dos novos fenômenos eclesiais.
Na medida em que rejuvenescemos a fé, que repaginamos a evangelização e que avivamos a vida pastoral, unindo a experiência de uma Igreja que já gerou outras Igrejas e o fervor de uma Igreja que se dispõe renascer, temos a esperança de mais vocações!
Espiritualidade renovada e conversão pastoral: nessas condições, temos vocações.
Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia
