Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), elaborou uma sequência de planos pastorais que procuraram traduzir as orientações conciliares para a realidade brasileira. Embora a nomenclatura tenha mudado ao longo do tempo (Plano, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral ou Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora), existe uma continuidade muito clara, que conduz os planos das Igrejas Particulares.
Na 62ª Assembleia Geral da CNBB, realizada entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, em Aparecida-SP, os bispos aprovaram as novas diretrizes gerais da ação evangelizadora, ampliando, inclusive, seu período de validade, para seis anos.
Dentro do contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade, dos primeiros passos do pontificado do Papa Leão XIV, as diretrizes apontam essencialmente para um caminho de conversão das relações, dos processos e dos vínculos, através da escuta atenta dos sinais, realizando seu discernimento com o espírito sinodal, percorrendo os cinco caminhos da missão, para tornar cada vez mais a ação da igreja associada à tenda do encontro, que se alarga para acolher a todos.
Assim, a Igreja no Brasil estabelece como objetivo geral: “Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja Sinodal, sustentada pela Palavra e pelos sacramentos, em comunidade de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino”.
No desejo de percorrer os caminhos da missão, as diretrizes propõem cinco “modos concretos de armar a tenda no tempo presente, para que nela todos encontrem lugar, sentido e envio: 1. Animação Bíblica da Pastoral; 2. Iniciação à vida cristã; 3. Comunidade de discípulos missionários; 4. Liturgia e piedade popular e 5. Serviço à vida plena” (DGAE 2026-2032, n. 104).
O caminho litúrgico é perceptível no primeiro modo, como uma expressão da afirmativa presente na Introdução ao Elenco das Leituras da Missa: “A Igreja cresce e se edifica ao ouvir a Palavra de Deus” (n. 7).
Assim, “a Igreja é ouvinte e servidora da Palavra de Deus, que é o coração de toda a atividade eclesial. Três são os movimentos fundamentais para a vida de fé: a escuta reverente e contínua da Palavra na escritura, a celebração da Palavra, especialmente na liturgia, onde é proclamada e atualizada; e o anúncio da Palavra que vivemos, pois a missão da Igreja nasce no Evangelho e se dirige a todas as pessoas” (Verbum Domini, n. 51) (DGAE 2026-2032, n. 106).
A liturgia e a catequese devem testemunhar o espírito sinodal e caminhar juntas. Neste sentido é que o segundo modo contempla a Iniciação à vida cristã, evidenciando essa relação de proximidade e complementariedade entre estas duas vertentes. Como parte da missão urge o compromisso de compreender o valor da catequese de inspiração catecumenal, para “um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, conjugando o ensino doutrinário com uma experiência de intimidade, amor e amizade. […] Em íntima relação com a liturgia, deve também integrar as demais dimensões eclesiais – diakonia (serviço), martyria (testemunho) e koinonia (comunhão) – para formar discípulos missionários em todas as expressões da vida cristã” (DGAE 2026-2032, n. 111).
O terceiro modo demonstra sua relação com a liturgia, quando recordamos que no início de sua atividade pública, em vista da missão, Jesus, mediante um gesto fundacional, constitui a comunidade apostólica. Nos caminhos que o levam a Jerusalém deixa claro a importância da comunidade, como lugar do acolhimento, da pertença, da partilha e da solidariedade. Na última ceia, confia a esta comunidade a tarefa de “fazer isto em memória de mim”, que se evidenciará a partir do domingo da Ressurreição.
O quarto modo para concretizar a missão aponta diretamente para a liturgia e a piedade popular. “Celebrar é fazer memória viva dos grandes feitos do Senhor: cantá-los, recitá-los e atualizá-los sacramentalmente nos ritos e nas orações da Igreja. Nós, cristãos, celebramos o Mistério Pascal de Cristo, sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Mistério da nossa salvação, na qual somos inseridos pelos sacramentos, em especial os da Iniciação à Vida Cristã (IVC) – Batismo, Crisma e Eucaristia –, para que, passo a passo, possamos progredir na vida de Cristo e na comunhão eclesial” (DGAE 2026-2032, n. 124).
Na riqueza de nossas comunidades eclesiais, na diversidade dos dons, dos carismas, dos ministérios, a fé encontra na piedade popular um lugar para se expressar. “Essas manifestações brotam dentro do contexto da fé cristã e expressam uma sede de Deus profundamente enraizada no coração dos simples, gerando atitudes de confiança, sacrifício, paciência e solidariedade” (DGAE 2026-2032, n. 127).
É preciso cuidado para não criar hiatos entre a liturgia e a piedade popular de modo a ferir as expressões do povo de Deus. Por isso, “a piedade popular, para servir verdadeiramente à evangelização, além de enraizar-se nos símbolos e nos gestos que brotam da fé do povo, precisa inspirar-se na Sagrada Escritura, manter a centralidade de Jesus Cristo, integrar-se ao ritmo da liturgia da Igreja e não se desviar para práticas mágicas ou espiritualidades de mercado e de outras manipulações” (DGAE 2026-2032, n. 130).
Por fim, o quinto modo de concretizar a missão evidencia o compromisso com o serviço à vida plena para todos, através da evangélica opção preferencial pelos pobres, na promoção, defesa e cuidado da vida e na Ecologia integral. A liturgia, pela ação santificante do Espírito, constrói no coração de cada batizado um compromisso com a realidade que o cerca. Não celebramos fora de um tempo e desconexos da realidade.
“No rosto ferido dos pobres, reconhecemos o próprio sofrimento de Jesus Cristo, e, por isso, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, sempre atento às necessidades de seus filhos, especialmente dos mais vulneráveis” (DGAE 2026-2032, n. 139).
Percorrer o texto das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032 é contemplar um itinerário litúrgico, catequético, missionário, sustentado pela esperança. “Como tenda habitada por Deus e cuidada pela Mãe do Redentor, a Igreja aprende a acolher, gerar e oferecer a vida. À sua imagem, torna-se espaço fecundo onde a Palavra é vivida, a fé amadurece, a comunidade reúne, a liturgia se celebra e a vida é cuidada com amor” (DGAE 2026-2032, n. 233).
Pe. Kleber Rodrigues da Silva
