A normatização do mal

1 . Sujeito de bem com a vida, pai de família e crossfiteiro, assassina a tiros um gari e depois volta para casa, leva o cachorro para passear e em seguida vai para a academia treinar. Lá ele foi preso pela polícia. Em seu perfil nas redes sociais ele assinala que é cristão.

2. O Estado de Israel despeja uma montanha de bombas sobre palestinos encurralados em Gaza, matando mulheres, mães grávidas e crianças, atira em pessoas na fila para pegar comida e “pessoa do bem” acha que isso é coisa de cristão. Resgata-se Lamec jactando-se de ter tirado a vida a um homem que lhe causou uma simples ferida e, mais selvagem ainda, matou “uma criança por causa de um arranhão” (Gn 4,23). A desproporção da vingança promovida por Israel contra os palestinos fica clara no número de mortos. Foram massacrados até agora, mais de 61 mil palestinos em retaliação aos 1.250 israelenses assassinados pelo Hamas no fatídico 7 de outubro de 2023. De qualquer modo, um mal causado não justifica a prática de outro mal.

3. Católicos de comunhão diária festejam a doença e depois aplaudem a morte do Papa Francisco. Insuflados por ideologias políticas e formatados por influenciadores digitais, sentem-se comissionados a desacatar a autoridade e o ensinamento eclesiásticos. Invertem a ordem moral de um cristão, em vez de avaliar o que diz e faz o mundo a partir do ensinamento da Igreja, criticam o que prega o Papa e os bispos copiando o que apreenderam das redes sociais.

Vale transcrever uma mensagem que recebi e que bem descreve essa atitude pseudo-cristã. “Cristãos de dopamina vivem na dependência do próximo ‘culto inesquecível’. Eles confundem consolo com conforto, e unção com entretenimento. Querem sentir, mas não querem obedecer. Querem se emocionar, mas não querem se converter”. Infelizmente não indicaram o autor dessa sentença.

4. Existem católicos praticantes que, nas redes sociais, curtem e ou compartilham fake news ou teorias da conspiração sem consciência alguma da relação fundamental entre fé e moral social cristã. O compromisso com a justiça social tem sim raízes no evangelho. Pretender defender uma fé dissociada da caridade é ignorar muitos versículos dos evangelhos ou mesmo apagar completamente um deles, o mais assertivo nas questões sociais, o Evangelho segundo Lucas. Estão nele as passagens que mais acentuam a desigualdade social, vide a parábola do Pobre Lázaro (Lc 16,19-29). Lucas apresenta as bem-aventuranças em diametral e radical oposição aos “Ai de vós”, fórmula bíblica de maldição, opondo a desventura dos pobres a abundância egoísta dos ricos (cf. Lc 6, 20-26).

Muitos católicos esbravejam reverberando doutrina moral e protestando falhas no ensino da doutrina da fé, recusando-se aceitar que exista uma Doutrina Social da Igreja. Importante sempre lembrar o escrutínio do juízo final segundo o Evangelho de Mateus (cap. 25, 31ss). Nele, o Filho do Homem, identificado com os necessitados, cobrará das ovelhas e cabritos gestos de misericórdia e compaixão para com o irmão que sofre. Nenhum questionamento sobre práticas de piedade, que certamente é um deleite. Também não faz nenhuma exigência de retidão moral, que de praxe é um dever.

 

Por Pe. Silvio José Dias

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