PERSEVERANTES NA COMUNHÃO FRATERNA

Neste ano, a Diocese de Taubaté, reflete sobre as quatro características da comunidade cristã, apresentadas em At. 2,42. Na edição passada, consideramos que as comunidades primitivas eram “perseverantes nos ensinamentos dos apóstolos”; hoje vamos refletir como os primeiros cristãos eram “perseverantes na comunhão fraterna”. Nos Atos dos Apóstolos, vemos características dessa comunhão: “Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo … louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo” (At. 2,44-47).

Esse texto diz que os primeiros cristãos viviam uma comunhão fraterna; uma união de irmãos. Irmãos não são pessoas que se aproximam por afinidade, por conveniência, por pensarem de modo semelhante, ou por interesse comum, como tantas vezes vemos as pessoas se associarem. Irmãos têm um sentido profundo de comunhão, de afeto, de pertença, de proximidade. Irmãos crescem unidos; partilham a vida; se ajudam; se defendem; certamente, também se desentendem, mas continuam unidos por laços que são profundos. Mesmo assim, viver a relação de fraternidade tendo por base simplesmente a condição humana, por ter nascido dos mesmos pais, ou por ter sido criados juntos é algo ainda frágil; qualquer coisa pode ser motivo de desentendimento, de conflito, de afastamento.

Entre nós cristãos, há elementos muito mais profundos a fortalecer esse vínculo. Ter Deus como Pai, constitui e determina nossa relação com os outros como irmãos. O amor fraterno nasce desta relação de amor com Deus Pai, que nos deu a vida. É próprio do amor gerar vida. Exemplo de amor também temos em Jesus Cristo, nosso irmão maior, o primogênito dentre toda criação (cf. Cl.1,15). Ele nos revelou seu infinito amor fazendo-se próximo a nós, convivendo conosco, colocando-se ao nosso lado como irmão, dando a vida por nós e demonstrando que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelo amigo, pelo irmão (cf. Jo.15,13). Só quem experimentou o que é o amor, tem capacidade de amar. Ao experimentarmos o amor de Deus, visibilizado em Jesus, nós nos tornamos capazes de amar. Aprendemos dEle: “amai-vos como eu vos amei” (Jo.15,12). Por isso, os cristãos se caracterizam por esse amor: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros, como eu vos amei” (Jo.13,35). Para isso, contamos com a graça do Espírito Santo, que nos move a esse amor que se espelha no amor da Trindade e realiza a comunhão entre os membros da Igreja.

O cristianismo é essencialmente comunitário, pois se fundamenta no amor. Amor exige alteridade, exige o outro, exige comunhão. Para nós, a Santíssima Trindade é modelo perfeito de comunhão que se dá entre Pessoas distintas unidas em perfeita comunhão de amor. Nós recebemos a graça e nos espelhamos nesse amor para viver a comunhão fraterna. Viver como irmãos brota de uma decisão consciente, desejada, assumida, construída no dia a dia; sempre desafiadora, mas amparada pela graça do Espírito Santo. Por exigência desse amor, desenvolvemos a capacidade de perdoar, reconhecendo que o outro está sujeito ao erro, como nós também estamos. O amor e o exemplo de Cristo nos movem a desenvolver atitudes fraternas de renúncia a nós mesmos pelo bem dos outros. O amor não tem em vista os próprios interesses, isso seria egocentrismo ou egoísmo. O amor quer sempre o bem do outro e tudo faz nesse sentido (cf. I Cor. 13). O amor fraterno se manifesta em atitudes de serviço generoso; expressão disso temos no gesto de Jesus em lavar os pés dos discípulos (cf. Jo.13,14-15). Por isso, vemos na comunidade dos cristãos, pessoas que se dedicam ao cuidado dos pobres; os que se dedicam aos idosos e aos doentes; os catequistas e os ministros ordenados que se dedicam à evangelização, à instrução da fé; os religiosos que consagram a vida a serviço de Deus e do próximo; os que se dedicam aos cuidados do templo com as alfaias, limpeza e ornamentação; os que servem em ministérios litúrgicos, como acolhida, cantores, salmistas, leitores, etc.; os voluntários em asilos, casas de recuperação e outras instituições. Tudo isso é expressão de comunhão e amor fraterno; comunhão de amor que caracteriza e identifica os cristãos. Esse amor provém de Deus e estabelece o vínculo de comunhão fraterna. Quem não vive a dimensão comunitária do cristianismo ainda não entendeu o que é ser cristão. Sejamos perseverantes na comunhão fraterna.

 

Dom Wilson Angotti
Bispo Diocesano

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