O mal da polarização

A polarização tem dividido o debate político em esquerda e direita riscando uma linha no chão e fazendo parecer que há uma só possibilidade de construção social em que o outro lado deve ser eliminado. Parecem dois países diferentes em guerra dentro da mesma nação.

Igualmente prejudicial é pensar o catolicismo em termos de tradicionalismo e modernismo fazendo cindir a Igreja considerando a outra parte como herege e excomungada.

A sociedade, nela a política, precisa ser pensada a partir de ideias que podem sim, cada uma a seu modo, contribuir com o maior bem possível para a população. Essa é a vocação da política. Reduzir o debate a preferências por esquerda ou direita passa a ideia de que só existem lados opostos e excludentes. No entanto, pensar a partir de ideias de mundo e de organização social pode promover o diálogo na busca por soluções em prol do bem comum. Assim, em vez de esquerda e direita, o bem contra o mal, a conversa deve ser sobre valores e ações públicas que contribuem para o bem de todos. Dentre os valores tem destaque a democracia e o estado de direito.

Neste ano temos eleições gerais e a campanha política. Infelizmente, muitos de nós, gente como a gente, pessoas comuns que enfrentam no mundo real problemas reais, embarcam no debate de questões pouco relevantes que alguns candidatos e seus seguidores insistem em pautar. No centro do debate deve estar o bem do povo, a vida plena para todos, a justiça acessível também aos pobres, assim como os bens necessários para uma vida digna, entre outras necessidades que realmente afetam a vida do povo.

Consciente de seu dever de defender o bem para todos, de que sua missão a coloca presente e solidária com as pessoas neste mundo, a Igreja sempre se pronuncia colocando-se ao lado dos pobres e dos fragilizados diante dos poderosos (cf. GS 1). Cumprindo esse dever, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou mensagem por ocasião das eleições gerais deste ano. No texto, a CNBB reafirma o ensinamento do evangelho na defesa da vida, da dignidade da pessoa humana e dos esforços em prol do bem comum. Princípios que devem estar presentes na consciência do eleitor e dos candidatos nestas eleições.

A mensagem da CNBB faz referências a polarização estéril e perigosa para a paz e a democracia em nossa sociedade. “Não existe democracia sólida quando a divergência legítima é transformada em hostilidade permanente, pois o adversário político não pode ser tratado como inimigo”.  É fundamental fortalecer a democracia por meio do respeito às instituições da República, à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito e aos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular. A mensagem exorta os brasileiros sobre a importância de confiar no processo eleitoral e respeitar os resultados das urnas.

Outras indicações do texto apontam para preocupações tais como a desigualdade social, a corrupção, a compra de votos, o uso indevido de dinheiro público e a disseminação deliberada de notícias falsas, as tais das fake news.

Nós cristãos, exercendo nosso direito e dever como cidadãos neste mundo, não podemos esquecer nosso compromisso com o Reino de Deus. Ao escolher nossos governantes e lideranças políticas o evangelho deve ser o princípio norteador, antes de preferências pautadas por ideologias, afetos ou vantagens pessoais.

Os males causados pela polarização dentro da Igreja ficarão para um próximo artigo!

Pe. Silvio José Dias

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