Corações revelados

O Senhor conhecia os corações dos homens. Isso significa que Ele podia ler os seus pensamentos (cf. Mt 9,4; Lc 6,8). É verdade que não temos esse poder. Contudo, com um pouco de experiência sobre comportamento humano e com ajuda de alguma leitura de psicologia é possível a gente aprender a perceber algo do que realmente a pessoa pensa para além de suas palavras. O que as palavras não revelam, sinais corporais e atitudes entregam a verdadeira intenção por trás do discurso.

Grande dificuldade é superar a barreira da arte de enganar. Seja por carisma do interlocutor ou sejam preferências e emoções afetivas. Para superar essa barreira, ajuda bastante ter estudado filosofia e, com ela, ter conhecido a dialética e a lógica formal.

Contudo, vidência, experiência ou estudos hoje, ao que parece, se tornaram redundantes face a explosão das redes sociais. Lá as pessoas extravasam seus mais recônditos pensamentos, seus preconceitos antes tão bem disfarçados, seus ressentimentos mais velados e seus impulsos perversos mais controlados na vida real e na conversa “cara a cara”.

E não digo apenas daqueles aplicativos onde proliferam os nicknames e fotinhas fakes (e mesmo names e com a cara lavada). Que horror se pode experimentar numa discussão em grupos do WhatsApp. É só alguém expressar uma ideia tipo pomo da discórdia, que corações, pensamentos, fígados e biles se revelam. E mesmo quando não se tinha pretensão alguma de confrontar alguém ou ideias, de repente aparecem na tela palavras agressivas e desrespeitosas, acusações infundadas, interpelações afrontosas, tudo em reação a uma simples pergunta por mais informações ou questionamentos sobre postagens no grupo. Quem antes parecia que conhecíamos, ali na tela do celular, se apresenta um tremendo desconhecido. Ofensas, grosserias, gritaria (letras em maiúsculas), expressões “cala a boca”, lacracão, intimidação e deboche vindas de pessoas que fora da plataforma digital jamais se comportariam desse modo.

Esse comportamento se verifica, com muito mais intensidade no Facebook e no Instagram onde podemos encontrar, para grande espanto, vozinhas vociferando biles, insultando e desacatando autoridades eclesiásticas enquanto mostram despudoradamente no perfil de sua conta, o próprio rosto ou, pior, foto fofa dos netos.

Com tantos defensores coléricos da fé cristã quem salvará o cristianismo de tais cristãos?

A perfeição da vida cristã é a caridade. Lembremos que a caridade “não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade” (1Cor 13,5-6). Porém, o que se percebe em muitos que se proclamam defensores dos valores cristãos e verdadeiros católicos, autoinvestidos da presumida missão de policiar as palavras e ações dos outros, é exatamente o contrário do que define a caridade.

Pe. Silvio José Dias

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