Sobre grupos de oração

Grupos de oração encantam alguns, assustam outros. Vai muito da personalidade e dos perfis de oração de cada pessoa.

Curioso o fato de que um mesmo fenômeno, particularmente, gere fascínio e repulsa: a oração ardente, em voz alta, com gestualidade marcante. A Renovação Carismática Católica (RCC), com sua mística pentecostal, procura pela efusão do Espírito em tudo o que faz. Suas formas de rezar, da súplica à adoração, da intercessão ao louvor, almejam que o Pentecostes se realize no coração dos fiéis, atualizando sua força de nova criação.

Não se confunda isso com o neopentecostalismo, que age como uma empresa da fé, preocupada com lucros materiais, e faz do mundo espiritual um recurso de poder político, para dominar as mentes frágeis. O Pentecostes, narrado nos Atos dos Apóstolos, é o foco da versão mais madura da RCC, e não a conquista material do mundo, por meio de parcerias com forças espirituais que mais parecem anjos milicianos do que espíritos puros criados por Deus.

A oração de louvor talvez seja uma boa amostra para marcar essa diferença.

Uma senhora muito simples, que bem antes de eu pensar em ser padre já ajudava na minha paróquia, foi quem me fez pensar isso. Pela sua história, ela não seria uma grande estudiosa dos métodos de oração, nem tinha pretensões de se tornar uma megaempresária, e seu coração era bondoso demais para prejudicar intencionalmente alguém. Ela era carismática. Poderia ser uma senhorinha típica, da oração do terço das Filhas de Maria ou das guardas de honra do Apostolado da Oração, mas… ela era carismática.

Certa vez ela me convidou para um grupo de oração, quando eu começava minha caminhada de Igreja. Eu fui lá e não consegui ficar vinte minutos. Mais do que assustado, eu fiquei confuso com aquele jeito de rezar. As mãos elevadas, os cantos entremeados com súplicas altas, o cantarolar sem palavras: minhas convenções não se reconheceram naquele ambiente. Demorou muito para que eu conseguisse compreender o fenômeno social e religioso dos grupos de oração. Precisei quebrar preconceitos e, a melhor forma para isso, além dos estudos, é o contato com pessoas que estão do outro lada ponte. Hoje, quando penso na RCC, vem-me à mente aquela senhora – que estava na outra margem do rio.

Daquela noite em que sai correndo, uma imagem ficou viva na minha mente: ela, de mãos ao peito e olhos fechados, louvava. O louvor é a capacidade de falar com Deus, amando-o sem nada pedir. Ela O amava, nEle confiava. Ela não barganhava nem poder, nem riqueza.

O que tinha ela? Pentecostes!

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

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