Super Trunfo dos Papas

Havia um jogo de cartas, muito comum nos anos 1980, chamado Super Trunfo. Eram 32 cartas temáticas: tinha de carros, de dinossauros, de monumentos mundiais, etc. A ideia do jogo era relativamente simples: distribuir as cartas em número igual entre os participantes; comparar alguns valores entre as cartas; quem ganhava com valor maior, em cada rodada, ia pegando as cartas dos demais; quem terminasse com todas as cartas, vencia.

            Vamos a um exemplo, para ficar mais fácil de entender. Em um baralho de cachorros, cada carta tinha 4 valores: agilidade, agressividade, tempo de vida e peso máximo. Um jogador começava dizendo assim: “qual a agressividade do seu cachorro?”. Cada um tinha que dizer um número, que aparecia na primeira carta na sua mão. Um falava “7”, outro “4”, e um terceiro dizia “10”. Vencia esse último, que tinha o cão mais agressivo. Ele pegava a carta perdedora dos outros participantes e o jogo continuava.

            Alguns baralhos tinham uma carta especial, que levava o nome do jogo, “super trunfo”. Quem puxava essa, ganhava qualquer rodada.

            Mas… o que isso tem a ver com papas católicos?

            Bem… a impressão que me fica, tendo acompanhado já três mudanças de pontificado (de João Paulo II a Leão XIV) é que, antes do conclave, os nomes dos papáveis são discutidos em casas de apostas (tem gente que investiu dinheiro alto nisso). Tendo sido eleito um novo papa, porém, começa um “super trunfo” dos papas. Sobretudo, comparando os últimos papas que se conheceu. É sempre um jogo.

            Quando o atual Leão foi eleito, logo os jogadores começaram a invocar ele contra a carta de Francisco. “Agressividade”: Francisco, 6; Leão, 10. “Ortodoxia”: Francisco, 5; Leão, 10. “Esplendor da liturgia”: Francisco, 1; Leão, 10.

            Alguns comparam Leão e João Paulo II. “Carisma”: João Paulo, 10; Leão, 10. “Defesa da família”: João Paulo, 10; Leão, 10… (Francisco, 6).

            Comparações são inevitáveis. Diferenças são esperadas. Estilos são sempre únicos. O que acho estranho é esse jogo de “papa contra papa”. Pior ainda: Leão virou o “super trunfo” contra Franciso. Ele reza em latim, ele canta em grego, ele veste túnica bonita. Francisco rezava em latim também, mas na boca dele parecia pouco; ele cantava menos porque, como Leão, ele cantava mal; agora, túnica, mesmo que ele variasse, ninguém notava, afinal, ele não tinha esplendor. Qualquer coisa que se fale de Francisco, alguém grita “SUPER TRUNFO!”, e tira a carta do Leão.

            Jogo estranho, sobretudo se se considera que a maioria das pessoas só está preocupada com a roupa do Leão, não com a sua mensagem. Quem fala dele, comenta o sapato, a mitra e o báculo, mas nada das homilias.

            Nós católicos estamos virando um Instagram sem legenda: nada de mensagem, só imagem.

O Verbo se fez Rosto, é claro: “quem me vê, vê o Pai”. Mesmo assim, Ele continuava Verbo. Falta-nos o Verbo.

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

×