Pequenas obras

Em um grande hotel, a fechadura de uma porta simplesmente não fechava.

            O estabelecimento era muito bonito e bem cuidado: grandes áreas verdes, um rio que cortava o terreno, piscinas de vários tipos, áreas de jogos, quadras, blá, blá, blá. Os colaboradores da recepção todos em traje engomado, os da cozinha, de gravatas borboleta. Vê-se um vai e vem de pessoas no saguão, no salão de jantar, nas salas de convívio, nas áreas de lazer. Hotel é isso.

            Em um dos corredores dos muitos quartos, um velho homem conserta a fechadura de uma das portas que, apesar de toda tecnologia, travou. Não era problema digital, nem eletrônico, era mecânico mesmo. Um senhor dos seus setenta anos, vestindo um macacão grosso e ajoelhado ao lado de uma caixa de ferramentas, tentava solucionar aquele problema. A vida acontecia apesar dele, mas ele estava ali, fiel à sua função e àquela missão especial.

            Olhando o conjunto daquele lugar meio paradisíaco, aquele chaveiro eventual, que na verdade era um faz-tudo, passava batido. Quem é um velho de macacão e mãos sujas de graxa num panorama daqueles? O problema é esse: quem vê o conjunto não nota o milagre do detalhe. Se toda fechadura quebrasse, seria um terror para os hóspedes e um prejuízo para hotel, que levaria um banho de reclamações justas. Mas aquele homem foi cirúrgico: chegou mais rápido que ambulância em acidente de carro e já resolveu o problema. O hotel só é perfeito porque ele tem fechaduras que funcionam. E a garantia disso é um velho homem de macacão surrado.

            Na obra de Deus, o detalhe faz o Reino, a rotina faz a história, as pequenas obras importam. Mas isso só vê quem vê o mínimo, o básico, o ínfimo. Às vezes, é preciso uma lupa para ver Deus, não um telescópio (mas nós insistimos em supô-lo longe, longe, quase espacial… nós, cristãos telescópicos).

            Nas mãos daquele homem, uma olhada rápida mostrava graxa. Um olhar de fé me mostrou graça: um homem com mãos cheias de preta graça. Ele não era só um colaborador, ele era parte do hotel… ele era a maravilha do hotel. Ele era como aqueles que realizam o Reino: quem se faz pequeno e é fiel nas pequenas coisas é parte do Reino… é o Reino… Reino de Deus em forma de gente.

            Bendigo ao Senhor e elevo minhas mãos sem graxa, saudando os obreiros das pequenas coisas: ave, cheios de graça!

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

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