Francisco, “o Papa que veio do fim do mundo”, como ele fez questão de se apresentar desde o início do seu pontificado, escolheu como lema de ministério uma frase retirada dos textos de São Beda: “Miserando atque eligendo”, que significa “Olhou-o com misericórdia e o escolheu”. Segundo o Papa, essa frase o acompanha desde a confirmação da sua vocação sacerdotal, ainda na juventude, que se deu justamente numa Confissão Sacramental, o Sacramento da Misericórdia. Portanto, é muito mais do que um lema escolhido para a ordenação e o papado, mas um lema de vida, que ele buscou vivenciar em todas as situações.
A partir de um olhar atento e global a todos os seus documentos oficiais, pode-se então perceber que o seu magistério petrino foi muito amplo, uma vez que ele tratou de diversos temas como: as periferias geográficas e existenciais, as guerras, a fraternidade universal, a ecologia integral, a reforma da Igreja, os pobres, a sinodalidade, a Igreja em estado permanente de saída, os migrantes e muitos outros. Certamente, seus textos ainda serão muito estudados por especialistas e darão bons frutos no futuro da Igreja.
Contudo, o tema que desde o início mais nos marcou foi justamente a Misericórdia, foi o coração de toda a sua mensagem para o mundo e os cristãos. Desde o primeiro Angelus, recitado em 17 de março de 2013 da janela do apartamento papal que ele nunca habitaria, Francisco falou da centralidade da misericórdia, lembrando as palavras ditas a ele por uma senhora idosa que foi se confessar com ele quando ainda era Bispo na Argentina: “O Senhor perdoa tudo… se o Senhor não perdoasse tudo, o mundo não existiria”. E ele ainda acrescentou: “Deus nunca se cansa de nos perdoar, nós é que muitas vezes nos cansamos de pedir perdão”.
Fomos surpreendidos por Francisco, quando no dia 11 de abril, véspera do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia, do ano de 2015, o terceiro do seu pontificado, ele então proclamou por meio de uma Bula o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, permitindo que em todas as Dioceses do mundo se abrisse a Porta da Misericórdia. E na Quaresma deste Ano Santo, ele fez questão de enviar os Missionários da Misericórdia, sacerdotes que receberam a autoridade de perdoar pecados reservados à Sé Apostólica. O desejo do Papa para este Jubileu é que a palavra do perdão chegasse a todos, não ficando restrita somente ao interno da Igreja.
No término do Jubileu Extraordinário, por meio de uma Carta Apostólica, o Papa então anunciou solenemente: “Este é o tempo da Misericórdia para todos e cada um, para que ninguém possa pensar que é alheio à proximidade de Deus e à força da sua ternura”. Ainda apontou que “a cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil ao Espírito, na familiaridade com a vida dos santos, e na solidariedade concreta para com os pobres”. E como fruto concreto deste Ano Santo, Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum.
Por fim, Francisco faz sua páscoa definitiva justamente no contexto do Jubileu “Peregrinos da Esperança” (ano de 2025). Ele mesmo, estando na cadeira de rodas e enfraquecido por uma grave enfermidade, fez questão de abrir mais uma vez a Porta Santa, a Porta do Perdão de Deus para toda Igreja. A Misericórdia é uma mensagem central deste Ano Jubilar, pois não há esperança verdadeira sem uma experiência autêntica da Misericórdia. Papa Francisco foi um Missionário da Misericórdia e um Peregrino da Esperança, agora ele alcança a meta de toda a nossa peregrinação neste mundo: a vida eterna.
Pe. Luiz Gustavo Sampaio Moreira –
Reitor do Seminário Diocesano de Teologia
