Sinal de contradição

Solenidade de Cristo Rei do Universo. Em muitos quadros e cartões piedosos Jesus é representado como um dominador, sentado num trono glorioso, tendo a cabeça uma coroa imperial de ouro e cravejada de pedras preciosas, numa das mãos um cetro de ouro e noutra um orbe azul. A imagem lembra a coroação do rei Charles III em toda sua pompa e circunstâncias. No evangelho daquele domingo, Jesus era apresentado num quadro de dor e morte, pregado na cruz, coroado de espinho, abandonado pelos seus discípulos, humilhado com palavras cruéis e zombeteiras. E assim mesmo, ele se apressou a salvar mais um pecador arrependido antes de dar o seu último suspiro.

A ver pela propaganda e catálogos de artigos religiosos ou verificando-se alguns perfis de redes sociais e mesmo ao vivo, percebe-se que segue bastante aquecido o mercado de venda de indumentárias e adereços eclesiásticos, faixas com franjas e chapéus encimados por pompons decorativos. Bordados dourados, rendas vistosas e galões ricamente elaborados também elevam as vendas dos itens religiosos. Nos evangelhos Jesus criticava o gosto por roupas finas e por franjas distintivas dos fariseus e mestres da lei, enquanto elogiava a sobriedade de João Batista e vestia-se comumente igual o povo do qual se cercava.

Longas cerimônias com seus rituais rigorosamente executados, horas e horas de orações repetitivas e práticas de penitência exigentes só possível para os que são considerados os mais fortes formam uma religiosidade que vai ganhando mais e mais adeptos nas redes sociais e mundo a fora. Jesus recomendava aos seus discípulos não repetir a pomposidade dos fariseus e mestres da lei. Pedia uma espiritualidade sóbria, comedida, sem arroubos de grandeza nem ritualismo exagerado. Ao orar, orientava usar poucas palavras. Queria ver mais obras de misericórdia do que regras e ritos. Exigia mais justiça social na qual Deus fosse honrado e sua vontade respeitada. Para Ele, o respeito a dignidade humana vinha antes do Templo e das práticas de piedade.

Chega o Natal e surgem decorações natalinas deslumbrantes, algumas luxuosas podem ser vistas até em igrejas. Presépios vistosos são armados, nos quais as figuras aparecem finamente vestidas, ou com um cenário artístico que denuncia um gasto exorbitante. Jesus nasceu em Belém, numa família pobre, sem lugar próprio para ele, foi vestido de trapos e colocado numa manjedoura. Seus primeiros visitantes foram pobres pastores, testemunhas do empobrecimento do Verbo Divino que se revestiu da nossa humanidade rebaixada pelo pecado.

Dois modos, duas religiosidades, um sinal de contradição.

Pe. Silvio José Dias

×