Homilia para Solenidade de São Francisco das Chagas, Catedral de Taubaté, 03 de outubro de 2026
Frei Antonio Corniati, OFMConv.
Queridos Irmãos em Cristo! Paz e Bem!
Com fé, estamos reunidos para a celebração solene do Padroeiro Diocesano, São Francisco das Chagas. Esta celebração comemora os 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis. “Quem é Francisco”? Fazer esta pergunta significa entrar “na sua personalidade”. Cada um faça a si mesmo esta pergunta: “Donde saiu este santo?” A resposta imediata é: Francisco não era só um ambientalista ou um pacifista. Era, sobretudo, um homem convertido. Em Francisco tudo teve seu início com a graça da conversão, que nasce do encontro com Jesus Cristo Crucificado. Façamos, pois, a memória da conversão desse Santo que o Senhor nos deu, meditando a partir do tema São Francisco, um convertido por excelência.
- O PRIMEIRO ENCONTRO COM JESUS CRISTO CRUCIFICADO
Fazer a memória de sua conversão significa, antes e acima de tudo, acolher a inspiração originária que fez de Francisco o grande convertido por Cristo para viver seu Evangelho, mestre e exemplo na restauração da Igreja, da Humanidade e da Criação. Por isso, precisamos começar por onde ele começou e não por onde ele terminou.
Francisco, antes da conversão era uma espécie de “playboy”. Desde cedo, porém, ardia em Francisco o desejo de tornar-se grande, ilustre, conhecido e valioso para si e sua cidade, sua gente. Através de um misterioso sonho sentiu-se chamado a trocar os senhores desse mundo pelo “Senhor” de todos os senhores. E começa a implorar com mais fervor a misericórdia do Senhor para que lhe indicasse um plano para sua vida.
‘Implorar misericórdia’ faz-se quando se chega ao fundo do poço, num beco sem saída. Por isso, tomado por essa premência, certo dia, entrou na igrejinha de São Damião (Assis, Itália) para rezar. Rezar é, originariamente, abertura à gratuidade do Senhor. E, de joelhos, orando ferventemente, isto é, com todo sua boa vontade, bravura e dedicação, olhava e contemplava uma imagem do Crucificado. De repente, o olhar benigno, sereno e piedoso do ícone daquele Cristo o comoveu todo. A experiência era de que os olhos abertos e meigos de Jesus estavam olhando somente para ele, querendo revelar-lhe um importante segredo. De imediato, ficou tão atingido por aquele olhar cheio de compaixão que ouviu com toda clareza sua voz, falando-lhe no fundo de seu coração: – “Francisco, não vês que minha casa está se destruindo? Vai, pois, e restaura-a para mim!” Trêmulo e atônito, respondeu: – “De boa vontade o farei, Senhor!”
Ficou, então, tão iluminado e contente com aquela fala que, desde aquela hora, seu coração de tal modo ficou ferido e derretido ante a memória da Paixão do Senhor que, sempre enquanto viveu, levou em seu coração os estigmas do Senhor Jesus, como posteriormente apareceu claramente pela renovação dos mesmos em seu corpo, admiravelmente realizados e clarissimamente demonstrados
Assim, Jesus Cristo Crucificado passa a ser a alma, a vida de Francisco e ele, Francisco, passa a ser e a viver voltado, virado, con-vertido para Ele. Eis sua conversão: o encontro com Jesus Crucificado! E, Imbuído desse novo espírito decide abraçar a vida desse seu novo Senhor, Jesus Cristo Crucificado.
Para Francisco, amar e seguir Jesus Cristo Crucificado, agora, mais que um ato, um exercício, é um desejo, uma decisão, uma paixão, uma regra, uma vida: sua nova vida, seu novo desejo, sua nova paixão, sua nova Forma de Vida. Por isso, deixando de ser um simples fiel, torna-se um “convertido” de Cristo crucificado e para Cristo crucificado.
Era o ano 1205. Francisco tinha 25 anos!
E, para sacramentar essa decisão, deixa definitivamente a casa paterna, vende o que tem e distribui tudo aos pobres. Ato contínuo, dirige-se ao Padre da igrejinha de São Damião pedindo-lhe a permissão para morar com ele. E assim, embora com certa relutância, aceito esse seu pedido, Francisco não é mais somente um fiel ou leigo. Torna-se, oficialmente, um oblato, isto é, aquele que se doa, se entrega a Deus ou “converso”, um convertido, todo entregue ao poder de Criação do Espírito de Jesus Cristo Crucificado. Poder esse, que fará dele, Francisco, São Francisco das Chagas.
Começam, então, as primeiras experiências desse encontro com Jesus Crucificado. Muitas vezes, ao sentar-se à mesa, para tomar as refeições, parava suspenso, tomado pelas coisas celestiais. Nesse tempo, comovido pelo despojamento do Crucificado, radicaliza, eleva e personaliza, também, a experiência da pobreza Dele: vai de porta em porta mendigar o pão para seu sustento. E ele próprio, falando para si mesmo, dá a razão dessa atitude: “É necessário que vivas (Francisco) voluntariamente por amor daquele que nascido pobre, viveu paupérrimo no mundo e ficou nu e pobre no patíbulo e foi sepultado em sepulcro alheio!”
E, no vigésimo ano de sua conversão, no dia 14 de Setembro de 1224, dia da “santa cruz”, quando Francisco se abismava em profunda contemplação da paixão do Senhor no Monte Alverne, Itália, por um admirável e estupendo prodígio, o Senhor Jesus imprimiu-lhe no corpo as chagas de sua paixão, donde o venerarmos, hoje, como ‘São Francisco das Chagas’.
E, quase no final de sua vida, seu biógrafo relata que: “Quando estava doente e cheio de achaques, disse-lhe uma vez um companheiro: “Pai, sempre te refugiaste nas Escrituras, elas sempre foram um remédio para tuas dores. Peço que mandes ler alguma coisa dos profetas, pode ser que teu espírito exulte no Senhor”. O Santo respondeu: “É bom ler os testemunho das Escrituras, é bom procurar nelas Deus nosso Senhor, mas eu já me inteirei de tanta coisa das Escrituras que tenho o suficiente para recordar e meditar. Não preciso de mais nada, filho. Conheço o Cristo pobre e Crucificado [2Celano 105].
E a liturgia de hoje repropõe muito oportunamente a São Francisco das Chagas algumas expressões que o Apóstolo Paulo aplica a si mesmo: “Estou crucificado com Cristo, não sou mais eu que vivo, mas Cristo vive em mim. E esta vida que eu vivo no corpo, a vivo na fé do Filho de Deus que me tem amado e se entregou por mim” (Gl 2,19-20).
- CONVERSÃO A JESUS CRISTO CRUCIFICADO HOJE
Hoje, a conversão para o encontro com Jesus Crucificado, a mais importante de toda a Boa Nova de Jesus, está sendo redescoberta e retomada pela Igreja, a começar pelo Vaticano II: O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo (EG 26). O querido Papa Francisco retomou e aprofundou essa redescoberta conciliar lançando-nos este apelo: “Convido todo cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído» (EG 3).
Perguntemo-nos: de modo geral, nós, católicos, hoje, levamos uma vida de convertidos? Para que essa pergunta seja bem existencial, eu faço, e convido a fazer, o exercício da morte, isto é, o que eu gostaria de possuir depois que a morte me tirou tudo? Resposta franciscana: a cordialidade de Deus!
Que Maria Santíssima, venerada por Francisco como “A Virgem feita Igreja”, neste Ano de São Francisco, instituído pelo Papa Leão XIV, interceda para que cada fiel cristão, tendo São Francisco das Chagas como mestre e exemplo, leve uma vida de convertido. Uma conversão que nasça e floresça da alegria do encontro com a Boa Nova de Jesus Cristo crucificado; uma conversão que nos leve a exclamar e implorar com Francisco e como ele:
Altíssimo e glorioso Deus, ilumina as trevas do meu coração: Dá-me uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita, senso e conhecimento, ó Senhor, para que eu faça teu santo e veraz mandato. Amém.

