Pregar o Evangelho hoje (parte 1): homilia e pastoral

Dentre os discursos proferidos por um padre, o mais frequente é a homilia (perdendo somente, talvez, para os conselhos de confessionário). A cada missa, uma palavra sobre a Palavra é dita e, assim, o Senhor continua falando no “sacramento do Verbo” que é a pregação da Igreja.

            Como características principais, a homilia se diferencia das outras formas de pregação (a catequese, o retiro, as meditações…) por, ao menos, três razões. Em primeiro lugar, ela é delineada pelo contexto litúrgico, é parte integrante e não acessória de um culto que pretende, simultaneamente, louvar a Deus e santificar os homens. Por isso, ela é carregada de certa solenidade de estilo, que lhe dá ares de rito, de oração, de sacralidade. Em segundo lugar, ela é profundamente bíblica: não pode se reduzir a um ensinamento doutrinal ou a uma exortação moral, mas deve animar a vida da comunidade e dos fiéis com aquela Palavra que guarda o Deus Revelado, que falou e ainda fala ao Seu povo. Por fim, ela é um discurso pastoral: não é feita para mostrar o conhecimento do pregador ou para deixar o povo confuso com teologia, mas para cuidar das pessoas por meio de palavras que curam, que orientam, que convertem, que consolam.

            Na hora da missa, a homilia pode fazer muito sentido. Ela dá colorido ao rito que se repete, mostrando o novo de Deus para aquele dia específico que se celebra; ela esclarece a mente dos fiéis, que assim celebram com mais piedade e confiança; ela mesma dá alento e esperança para os cansados, os enfermos, os sem horizonte. Enquanto a homilia está “no palco”, seus efeitos são extraordinários! E isso já é dom de Deus, que se vale dessa ferramenta humana para continuar se manifestando e agindo na vida de seus filhos e filhas.

            Mas, e depois da missa? E quando o culto acaba e as portas da igreja se fecham e o povo volta para a vida rotineira? O que resta da homilia?

              Se ela foi boa, vai restar algo, é claro, do conteúdo e do afeto que ela comunicou. Uma orientação de vida, um afeto santo, uma compunção de conversão, uma prática concreta… em termos de ideias e de afetos, sempre fica algo. O que não resta, necessariamente, é um “pós-homilia”: algo que realize, na paróquia, o que foi anunciado, uma obra apostólica onde a homilia pode ecoar e ganhar ainda mais credibilidade.

            Daí, a provocação para nós padres: tudo o que pregamos poderia ter uma “obra-ecoante” em nossas comunidades, isto é, pastorais e ações que realizem o que falamos. Se anunciamos consolação, que haja ministérios de consolação (visita aos enfermos, atenção aos carentes, escuta dos desesperados); se cantamos novos céus e nova terra, que haja obras sociais (pastoral de rua, vicentinos, coletas da caridade); se conclamamos ao crescimento espiritual, que haja caminhos para o aprofundamento da fé (escolas bíblicas, oficinas de oração, retiros espirituais).

            A homilia já pode ser salvífica por si mesma. Se ela encontrar espaços de efetivação e continuidade prática na paróquia, melhor ainda: ela certamente será sinal do Reino. O que pregamos é, por si, um projeto pastoral à espera de concretização.

 Aos leigos, vale outra provocação: ouvindo as homilias, o que você acha que poderia fazer pela sua paróquia?

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

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