Olhos que rezam

O Santuário Nacional de Aparecida (Aparecida do Norte – SP) é uma referência para o Brasil inteiro. Suas grandes proporções impressionam: é o maior centro de peregrinação da América Latina e o segundo maior templo católico do mundo (logo atrás da Basílica de São Pedro, em Roma), comportando cerca de 40 mil pessoas ao redor do seu altar central. Católicos do mundo todo, quando passam pelo Estado de São Paulo, fazem o máximo para conhecerem esse monumento construído com tijolo e fé. É realmente impressionante! O tamanho descomunal, a arte sacra, o clima espiritual… tudo conclama a um “vinde e vede”.

Apesar de sua arquitetura, história e beleza, é no olhar dos fiéis, porém, que mais se sente algo de Deus. Sabe quando a gente pega uma estrada em noite fria e a neblina é tão densa que se diz “dá pra pegar com a mão”? Aparecida é assim, só que com a fé.

Na rampa que conduz à imagem da Senhora da Conceição há sempre alguém ali, disputando um lugar entre os passantes e os estacionados, querendo ver a mãe de Deus, a mãe de todos. Há um clima denso, mas não pesado. Uns choram, outros riem, todos sentem. Cada um é atravessado por uma força espiritual, como se fosse o único sujeito em uma igreja abarrotada de fieis. “Alguém me tocou”, poderia dizer Maria, imitando seu Filho comprimido pela multidão. Todos tocam, mas não como massa sem rosto: cada pessoa toca do seu jeito, com a sua história, e Nossa Senhora também sente a cada um como filho único, na peculiaridade de cada um. É uma explosão de vida e de espiritualidade aquele lugar.

Quando o Renato Teixeira compôs Romaria, em 1978, ele capturou como ninguém o espírito de Aparecida. “Como não sei rezar, só queria mostrar / meu olhar, meu olhar, meu olhar”. Quem saber rezar de verdade? Às vezes não dá para acreditar quando alguém diz que sabe. Nem os apóstolos sabiam: “Mestre, ensina-nos a orar”. E aí vem Maria e a Basílica e a imagem do Paraíba e… “só queria mostrar meu olhar”. É a lição mais intuitiva de vida espiritual que se pode colher em poucos minutos naquele local. Olhar para Nossa Senhora é uma prece com os olhos.

Minha avó fazia isso até em casa, para a imagenzinha que ficava no criado mudo dela. Um monge que reza para um cartãozinho com uma gravura piedosa está a fazer o mesmo. A mãe que olha seu bebê com contemplação, ela está em plena oração. O filho que mira o pai que o deixa na escola, reza. O padeiro espiando pelo vidro do forno, suplica e louva.

No fundo, quem olha bem sempre reza. Por isso, “ide e vede”!

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

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