Nós e o Papa Francisco

Na edição de maio de 2025 do Jornal O Lábaro colhemos alguns depoimentos sobre o Papa Francisco, falecido em 21 de abril de 2025. Em cada depoimento um detalhe, uma experiência, um perfil, uma mensagem, um aprendizado do Santo Padre que conduziu a Igreja de Cristo de março de 2013 a abril de 2025.

Mons. Irineu Batista da Silva, Chanceler da Diocese de Taubaté

O Papa Francisco foi admirável pontífice, não só no sentido de ser Papa, mas também em seu sentido literal: “construtor de pontes”, e isso nos mais variados ambientes. Ressalto a dimensão da misericórdia por ele apregoada e modelarmente vivida.

O Papa Francisco e a misericórdia se entrelaçaram profundamente e a misericórdia foi o coração pulsante de todo seu legado. Já o seu lema episcopal: “Com misericórdia, o elegeu”, texto do Evangelho que mostra Jesus chamando o pecador público Mateus para ser seu discípulo.

Em seu pontificado, a referência à misericórdia torna-se o centro de sua atenção: homilias, discursos, catequese sistemática, a Bula: “O rosto da Misericórdia”, a Carta Apostólica “A misericórdia e a misera”, a proclamação do Ano Santo da Misericórdia em 2016, a Carta Apostólica “Mitis Judex”, sobre o processo de Declaração de nulidade de matrimônios, a “Encíclica Dilexit Nos” sobre o coração misericordioso de Jesus e outros.

Dentre seus tantos ensinamentos se evidenciam: A misericórdia é a “Carta de identidade de Deus”, é o “coração do Evangelho”, “ela é essencial para a vida espiritual e para a convivência humana”. É “o ar que respiramos” e sem ela é impossível viver. Ensinava ainda que o rosto de Cristo é a revelação suprema da misericórdia de Deus. O rosto da Igreja, o rosto de todos e de cada um de nós devem espelhar o rosto de Cristo.

Para isso, Francisco buscou aproximar a Igreja das pessoas. enfrentando os desafios contemporâneos com coragem e compaixão. Promoveu uma “Igreja em saída”, incentivando os cristãos a saírem ao encontro dos pobres, migrantes e descartados pela sociedade e os apoiarem. Expunha ele que a Igreja deve ser acolhedora como um “hospital de campanha” que cuida dos feridos, especialmente dos marginalizados e pecadores. Manifestou ainda: “Quanto desejo que (…) as nossas paróquias e as nossas comunidades, cheguem a ser ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença”.

Sua vida, mas não só; também sua morte teve a marca da misericórdia: foi sepultado às vésperas do Domingo da Divina Misericórdia. Isso já acontecera com seu antecessor João Paulo II, ínclito promotor da devoção à Divina Misericórdia que faleceu às vésperas do Domingo da Misericórdia do ano de 2005.

Papa Francisco é reconhecido como “O Papa da Misericórdia” e assim será lembrado. Sua vida exemplar é um poderoso estímulo para acolhermos com mais vigor e entusiasmo o mandato de Cristo: “Sede misericordiosos…”

Irmã Elza Maria Pianta, Religiosa Franciscana do Coração de Maria

A escolha do seu nome me despertou para a responsabilidade de levar mais a sério a minha vocação franciscana. O contato com seus escritos, seus gestos e palavras, me faz voltar para a pessoa de Jesus de Nazaré que vem nos mostrar a Misericórdia do Pai para com a humanidade ferida, impelindo-nos a sermos uma Igreja em saída, atingindo as periferias geográficas e existenciais. Uma Igreja pobre com os pobres e para os pobres, uma Igreja sinodal “todos juntos” como filhos do mesmo Pai e da mesma Mãe, cuidando da nossa Casa Comum como guardiões da Criação, buscando uma economia que não mata mas gera a vida e constrói um mundo sem guerras e promove a Paz entre os povos. Somos todos Irmãos!

Padre Ricardo José dos Santos Silva, Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Boa Esperança

O Papa Francisco me inspira profundamente pela sua coerência de vida e simplicidade no falar, de forma que as pessoas conseguiam compreende-lo. Seu testemunho de uma “Igreja em saída” me impulsiona a servir com mais disponibilidade, onde for necessário, lembrando que o sacerdócio é, antes de tudo, um serviço. Sua devoção à Virgem Maria de sempre pedir sua maternal intercessão antes e depois das viagens apostólicas me toca e fortalece minha fé, ensinando-me a confiar plenamente na ternura de Deus, como Nossa Senhora fez. Seu exemplo renova meu amor pela missão, pelo povo e pela Santa Igreja de Cristo.

Pierry Carvalho,  Jornalista e Chefe Escoteiro Católico

O Papa Francisco começou a ter uma influência significativa em minha vida em 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Eu tinha 15 anos e foi emocionante vê-lo pela primeira vez, junto a milhões de jovens, na areia de Copacabana.

Em 2019, como Chefe Escoteiro Católico, participei do Euromoot, um evento do Movimento Escoteiro Católico. Tivemos a honra de estar perto dele e ouvir sua mensagem na Sala Paulo VI, onde ele destacou a importância de doar e servir ao próximo, valores essenciais no escotismo. Em suas palavras: “O coração se adestra não com o ter, mas com o doar; Dai e vos será dado.”

Em 2022, voltei à Europa para um evento do Escotismo e pude participar de um Angelus na Praça São Pedro. No dia 31 de julho daquele ano, suas palavras sobre o desprendimento dos bens me marcaram profundamente. Ele refletiu: “Então, procuremos perguntar-nos: como está o meu desprendimento dos bens, das riquezas? Diz que não se pode servir a dois senhores, e – atenção! – não diz Deus e o diabo, nem o bem e o mal, mas Deus e as riquezas. Esperar-se-ia que dissesse: não se pode servir a dois senhores, Deus e o diabo. Ao contrário, diz: Deus e as riquezas. Servir-se das riquezas, sim; servir à riqueza, não: é idolatria, é ofender a Deus.”

Por fim, em 2023, como voluntário na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, a frase marcante foi: “Todos. Todos. Todos. Na Igreja há lugar para todos.”

Cada encontro com o Papa Francisco foi uma lição viva de humildade, serviço e amor ao próximo, inspirando-me a viver esses valores, mesmo com minhas falhas, mas sempre lembrando que “O Senhor não aponta o dedo, mas abre os braços” para nos acolher.

Cônego José Luciano Matos Santana, Pároco da Paróquia Santo Antônio de Lisboa e Coordenador Diocesano de Pastoral

Papa Francisco, Pastor com “cheiro de ovelhas.”

Obrigado amado Papa Francisco pelo legado pastoral e espiritual, fostes um Pastor com “cheiro de ovelhas”, como tantas vezes exortastes os ministros ordenados: “sede Pastores com o “cheiro de ovelha”, presentes no meio de vosso povo, como Jesus, Bom Pastor (Discurso para prelados na sala Clementina, 19/setembro/2013).

Expressão que simbolizava para o bispo de Roma, o seu sonho de uma Igreja mais evangelizadora, de portas abertas e em saída, além de enfatizar a importância de uma abordagem pastoral de proximidade, de acolhimento e de cuidado, principalmente para com os pobres e sofredores.

Nos ensinastes que Deus é “Deus das surpresas” (homília de 08 de maio de 2017, Capela da Casa Santa Marta), para o momento da humanidade e seus desafios, fostes para o Mundo e à Igreja, verdadeira surpresa do Senhor. Em suma, a Igreja Católica foi enriquecida com sua vida e Missão de Pontífice da Misericórdia, Peregrino da Esperança e anunciador da alegria do Evangelho.

Padre Márlon Múcio Corrêa Silveira, Presidente da Associação Missão Sede Santos

Eu não sei bem por que isso aconteceu. Com todas as minhas misérias, eu sempre quis ser todo da Igreja e quero buscar sê-lo sempre mais; o menor dos seus filhos, quero ser o mais fiel. Querer morrer como apenas como um filho da Igreja, como pediu Santa Teresa d’Ávila para si mesma. Embora eu vá celebrar, se Deus quiser, 25 anos de padre, em junho próximo, eu nunca tinha pego nas mãos de um Papa. Mas todos eles sempre pegaram nas minhas mãos.

Um Papa olhou nos meus olhos e ouviu a minha voz! Em 22/05/24, eu beijei a mão do Santo Padre, o Papa Francisco. Eu fui ao Vaticano para pedir as bênçãos dele para o nosso hospital Casa de Saúde Nossa Senhora dos Raros, e os raros do Brasil e do mundo. Coloquei nas mãos do Santo Padre a imagem de Nossa Senhora dos Raros. Nosso amadíssimo, Pai e Pastor, Dom Wilson empenhou-se em tudo em que eu me encontrasse com o Santo Padre. E o Papa ainda me agradeceu pelo hospital que fundei em Taubaté. Essas cenas todas estão no filme MILAGRE VIVO, que mostra minha luta para eu me manter vivo, tenho uma doença ultrarrara e neurodegenerativa, e minha luta pelos raros do Brasil.

Na presença do corpo do Papa Francisco, no dia 25, eu rezei primeiramente a Ave-Maria que Dom Wilson, com todo o carinho, me pediu, em sufrágio da alma do Santo Padre, e pedindo a condução do Santo Espírito de Deus para o conclave; depois, rezei as minhas, chorando muito. Eu fui, com um grupo de peregrinos do Brasil, para Fátima, Lisboa e Roma. Nosso ponto alto seria a canonização do Beato Carlo Acutis. Mais os planos de Deus foram outros. Fomos para a canonização de um adolescente santo e participamos do funeral de um papa que realizou uma revolução de santidade na Igreja.

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