O mês de setembro em nosso país é marcado pela temática bíblica. Nossos bispos e padres apresentam essa oportunidade para que todos possam compreender a importância que a Sagrada Escritura possui para a vida do fiel que busca uma intimidade com Deus e, além disso, poder compreender que a Palavra do Senhor ilumina todos os nossos passos (cf. Sl 119,105) durante nosso peregrinar neste mundo.
Ao aprofundarmos o contato com a Sagrada Escritura, encontramos inspiração e força para viver uma vida cada vez mais santa, banhada pela fraternidade de forma autêntica. Para isso, ela nos ensina que amar o próximo não é opcional, mas essência da fé cristã (cf. 1Jo 4,20-21).
A Sagrada Escritura nos recorda que Deus “arma sua tenda entre nós” (cf. Jo 1,14). Recordemos que, primeiro, é o próprio Deus quem tomou a iniciativa de habitar no meio do povo e caminhar com ele, assim como podemos ver no livro do Êxodo (cf. Ex 33,7-11). A Palavra ilumina nossa compreensão de que a moradia é um direito e um dom que deve ser partilhado. Como nos mostra o Texto Base deste ano, falar de moradia, já no Antigo Testamento, também é falar da “garantia de viver com dignidade, no espaço onde era possível estabelecer vínculos, relações e sobreviver economicamente por meio do trabalho”. Quando alguém se apodera de uma moradia alheia, ou impede que outro a possua, desrespeita a dignidade humana da pessoa, fazendo com que se estabeleça o pecado estrutural (cf. Mq 2,1-2.6,9-16; Hb 2,9-12).
Nota-se que a habitação, no Novo Testamento assumi, por meio de Jesus, o sentido de ensino e cura, acolhida e repouso, além de ser um local onde podemos estabelecer vínculos. É onde a fé é vivida desde a primeira infância, e onde a criança aprenderá os valores básicos para a vida.
É imprescindível que nunca nos esqueçamos que a Palavra de Deus nos impulsiona à um agir neste mundo em favor da justiça. Muitos podem acabar deixando-se levar pelo pensamento de que a Palavra apenas deve ser usada para uma oração pura e simplesmente inerte, banhada por um egocentrismo exorbitante e que, muitas das vezes, se torna alienante e estéril, não gerando frutos de conversão e ação na humanidade. São Tiago em sua carta já nos chama a atenção para isso: à oração deve se atrelar a ação, sem a qual a fé se torna morta (cf. Tg 2,17.26). Essa realidade dupla ficou bem conhecida no mundo cristão pelo lema de S. Bento: ora et labora! (Reza e Trabalha!).
A partir disso podemos perceber que pela Sagrada Escritura somos convocados por Deus a fazer com que a justiça seja vivida de forma plena neste mundo, compreendendo que a fraternidade não pode ser apenas um sentimento, mas que deve se transformar em atitudes concretas. Assim como os profetas do AT, é necessário que denunciemos os erros e abusos cometidos, sabendo apresentar, com discernimento, os caminhos a serem trilhados para que todos possuam seus direitos resguardados.
Que possamos, meus irmãos, agir para que todos possam viver a sua dignidade de filhos de Deus. Mas para que isso seja possível, não deixemos de buscar na Palavra do Senhor a força para o discernimento da verdade, unindo a ela os ensinamentos doutrinais destes séculos de cristianismo, a fim de que possamos manifestar toda a glória de nosso Deus em meio a um mundo que pouco a pouco quer o deixar de lado. Não basta refletir: é preciso transformar a realidade. Tenhamos sempre em mente a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) para que não nos questionemos, diante de uma pessoa sem moradia, de onde ela veio ou por que chegou àquela situação, mas ao reconhecer sua dignidade nos perguntemos: o que posso fazer para ajudá-la? Que nossas comunidades se tornem sinal de esperança e acolhida, um espaço onde cada irmão possa viver com dignidade entre nós.
Pe. Wellington Giovane Santos
