Encontro Ecumênico do Estado de São Paulo

“Com efeito, meus irmãos, pessoas da casa de Cloé me informaram de que existem rixas entre vós. Explico-me: cada um de vós diz: “Eu sou de Paulo!”, ou “Eu sou de Apolo!”, ou “Eu sou de Cefas!”, ou “Eu sou de Cristo!”. Cristo estaria assim dividido? Paulo teria sido crucificado em vosso favor? Ou fostes batizados em nome de Paulo?” (cf. 1 Cor 1,11-13)

Estará o Cristo dividido? Sinceramente, não. Mas os Pedros, Paulos e Apolos, de ontem e de hoje, sim.

O que ensina a Sagrada Escritura?

a) “Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (cf. Ef 4,4-5);
b) “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. (cf. Jo 17,21)

1 – Deus é amor. Tudo o que criou é muito bom. Era. Hoje, não é mais, assim, pois o homem mexeu no Projeto Divino. No entanto, nosso Criador continua sendo misericordioso em sua Triunidade. É unidade, comunhão, no que diz respeito à natureza e Trindade, quanto às pessoas. O ser Trindade em Deus é ser fundamentalmente relação, ou seja, estar voltado para “Pros Ton Teon” (cf. Jo 1,1). Isto caracteriza o ser pessoa. É nesta unidade Triuna que nós sempre devemos buscar nossa maior comunhão, pois Nela temos origem e para Ela nos dirigimos, para encontrar nossa felicidade. Todos e todas. Buscamo-la enquanto pessoas, famílias, comunidades e igrejas.

2 – Ruptura.

2.1 – O pecado introduziu desafinação na sinfonia da criação, e desunião entre os irmãos agraciados com tantos dons divinos. Com o passar do tempo as fissuras aumentaram e os homens não mais se entenderam, chegando à confusão babélica, da qual fala o gênesis (cf. Gn 11). A fraternidade humana estava, assim, comprometida e a agressividade crescia. O primeiro pecado originou outros, como homicídios, fratricídios, injustiças e guerras. O demônio continua solto, e muito ativo entre os filhos de Deus. As divisões aumentaram entre os povos e cresceram também as denominações religiosas, até entre os cristãos. Houve contestação de fórmulas dogmáticas como no Concílio de Éfeso (431) (Homoousios) e no de Calcedônia (451), (uma pessoa e duas naturezas) e, em 1054, aconteceu a grande ruptura entre Ocidente e Oriente.
A unidade estava, infelizmente, rompida, mas não me cabe a função de emitir juízo de valor, apenas a de lançar um necessário e justo olhar histórico.

2.2 – “Shemá Israel” já foi dito e exigido do povo da Antiga Aliança (cf. Dt 6,4). Porém, levar isso a sério, ouvindo-O, tornou-se difícil, amá-Lo ainda mais, por isso, desobedecer-Lhe – tornou-se uma tentação contínua para o povo. Os profetas veterotestamentários continuavam a lembrar ao povo de Deus de então, a necessidade do “Shemá” e Cristo recordou-o aos Apóstolos (cf. Mc 12,29; Heb 3,7.15; e 4.7). Sim. É preciso ouvir fielmente o Senhor, bem como, nossa própria consciência, e voltar a ser verdadeiros filhos de Deus e irmãos em Cristo.

2.2.1 – Não nos cabe acusar, uma vez que não somos juízes, mas eternos reconciliandos, pois, em Cristo, somos irmãos, mesmo que pecadores todos. Por isso, o Pai nos enviou seu Unigênito – O Verbo feito homem, em tudo semelhante a nós, menos no pecado (cf. Hb 4,15). Ofereceu-nos o perdão e a reconciliação, reacendendo em nós, a esperança de podermos chegar à Casa do Pai (cf. Jo 14,1 ss), mas não, sem antes, redescobrirmos a necessidade da conversão e da valorização recíproca, na construção do Reino de Deus. Deu-nos a graça de percebemos que somos pecadores, ou seja, não só limitados em nossa finitude, mas também culpados em nossa soberba (Hybris).

2.2.2 – Conscientes de sermos pecadores diante de Deus, cabe-nos, então, buscar o perdão, bem como, a fraterna aproximação. A Palavra de Deus e nossa própria experiência, ampliaram a percepção do amor de Deus por nós, e da necessidade de livres e amorosamente buscarmos o cultivo da fraternidade recíproca. Pela Palavra, Deus continua a nos formar, e, pela sua graça, nos transforma. Devemos, todavia, fazer nossa parte, diminuindo os obstáculos à ação da graça divina, e à consecução da sempre maior fraternidade.

2.2.3 – Tal ação é propedêutica e indispensável para o reconhecimento de nossa verdadeira situação existencial, dos limites e riquezas, dos elos que nos unem e dos senões que nos afastam. Constatamos, então, certamente, que bem mais temos em comum, do que, porventura, nos venha a dividir. Possuímos a mesma Palavra que nos chama à união (ut omnes sint; Jo 17,21). A oração nos concede a alegria de chamarmos a Deus de “Abbá”, e a graça santificante, bem como transformante, para vivermos a vida nova do Batismo, da paz (Shalom), e da santificação etc etc.

3 – Não devemos nunca desconfiar da grandeza e amor divinos, se muito, dos nossos limites, bem como, de nossa vontade e da capacidade de conversão, pois no pecado nascemos (cf. Salmo 50), nele crescemos pessoal, bem como, coletivamente, e ainda o multiplicamos em nossa vida eclesial e social. Jamais acontecerá a desejada maior comunhão entre os cristãos, se estes não a buscarem pela oração, conversão e reconciliação no amor. Cabe-nos bater no peito e dizer: “Perdão Senhor”, pecamos. Não é Cristo que está dividido, mas nós cristãos que continuamos a rasgar a túnica inconsútil de Cristo, e, por isso, estamos desunidos.

4 – Conclusão:

As comunidades de Corinto, outrora, puxavam por Pedro, Paulo ou Apolo (cf. 1 Cor 1,13). As de hoje, também, tem seus pedros, apolos e outros, que dos antigos, até podem ter os vícios, mas, dificilmente, suas virtudes. Com Paulo, podemos perguntar-nos: “estará o Cristo dividido?” Com ele devemos então responder: Cristo não, os cristãos sim. Menos que no passado? Não sei, pois não me cabe julgar, mas tenho convicção de que já aprendemos, com a História. É nossa responsabilidade diminuir o que nos desune para fazer crescer o que nos irmana, e Deus que é Pai, pelo Filho e Espírito Santo, nos concederá todas as graças necessárias.
_______________________________
Dom Carmo João Rhoden, SCJ
Bispo Diocesano de Taubaté

FONTE: O LÁBARO – SETEMBRO 2014

Comente

×