Documento final do Sínodo dos Bispos O Coração da Sinodalidade – Parte I

O Documento final do Sínodo sobre a Sinodalidade, acolhido e publicado pelo Papa Francisco, em 24 de novembro de 2024, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo – Rei do Universo, recolhe os frutos principais de um caminhado marcado pela escuta do Povo de Deus e pelo discernimento dos pastores da Igreja. O caminho sinodal passou por três grandes fases: nas Dioceses, na conferencias episcopais, até chegar propriamente à celebração do Sínodo em Roma.

Vale a pena ressaltar que desta vez o Papa não quis publicar um documento específico, mas quis juntar-se ao “nós” da assembleia sinodal, fazendo do Documento Final uma orientação autorizada para a vida e a missão da Igreja. Neste artigo, destacamos as ideias principais da primeira parte do documento: O coração da sinodalidade, chamados pelo Espírito Santo à conversão.

A elaboração do texto é norteada pelos relatos evangélicos da Ressurreição. O primeiro texto é de João 20,1-2, que revela os movimentos de três discípulos em direção ao sepulcro: Maria de Magdala, Simão Pedro e João. Destacando que a dependência recíproca entre eles encarna o coração da sinodalidade.

Logo no início, o Documento final recorda a importância da eclesiologia do Concílio Vaticano II: a Igreja como povo de Deus e sacramento de unidade. Povo de Deus que tem raízes sacramentais. “O santo Povo de Deus participa também do múnus profético de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo sobretudo pela vida de fé e caridade” (LG, n.12). E afirma: “Pelo Batismo, todos os cristãos participam do “sensus fidei” (n. 23). O batismo tornar-se assim o princípio fundamental do processo sinodal.

Para esclarecer melhor, o sensus fidei é “uma espécie de instinto espiritual que capacita o fiel a julgar de forma espontânea se algum ensinamento particular ou determinada prática está ou não em conformidade com o Evangelho e com a fé apostólica. Ele está intrinsecamente ligado à própria virtude da fé; decorre da fé e é uma propriedade dela. Pode ser comparado a um instinto, porque não é primariamente o resultado de deliberação racional, mas assume a forma de um conhecimento espontâneo e natural, um tipo de percepção” (Doc. Comissão Teológica Internacional sobre o sensus fidei na vida da Igreja, n. 49)

O texto final aponta para uma espiritualidade sinodal, isto é que nasce da ação do Espírito Santo e requer a escuta da Palavra de Deus, a contemplação e o silêncio. A conversa no Espírito é um instrumento que, mesmo apresentado limites, tornou-se fecundo para permitir a escuta e o discernimento do que o Espírito diz às Igrejas, foi o método de trabalho usado durante todo o processo sinodal, praticamente em todas as suas fases. Certamente. esta pratica continuará norteando nossas assembleis e reuniões pastorais. 

Enfim, a primeira parte do Documento conclui-se com apresentação da sinodalidade como profecia social para o nosso tempo, que desafia o isolamento e individualismo, mas também um comunitarismo social que sufoca as pessoas. Sinodalidade e ecologia integral, palavras-chave do Magistério de Francisco, assumem ambas a perspectiva das relações e insistem no cuidado dos vínculos que temos uns com os outros.

Pe. Luiz Gustavo Sampaio Moreira
Reitor do Seminário Diocesano de Teologia

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