Uma das funções da crônica é deixar relatada, para a posteridade, a situação de um dado momento da história. Conversando com alguns colegas padres, há um fenômeno bastante curioso, recente na experiência paroquial do nosso Vale do Paraíba, que merece um registro. Trata-se dos coroinhas “sem vocação”.
Uma longeva vivência da Igreja mostra o quanto os “meninos do coro” tinham sempre, em seu meio, os pré-candidatos à vida de padre. Como dizia um professor, ser coroinha era quase que a primeira etapa de uma carreira eclesiástica. O próprio chamado vocacional tinha muita relação com o fascínio pela missa e pelo padre da paróquia (ou por um padre missionário, que tivesse deixado uma marca profunda em pouco tempo). De uns tempos para cá, no entanto, dois fatos saltam aos olhos, marcando uma mudança de época.
Primeiramente, os grupos de coroinhas são dominantemente femininos. Aliás, na Igreja Católica a mulherada é muito mais numerosa e operosa que a “homarada”. Já nos tempos de Jesus, as pias matronas O seguiam e lhe auxiliavam como precisava. O que seria da vida paroquial sem elas? Os grupos de coroinhas vêm confirmar, de maneira mirim, o que já é coisa antiga.
Em segundo lugar, os rapazes que começam menores aprendizes nos coroinhas e ganham pose de estagiário nos grupos de acólitos ou de cerimoniários não querem ser padres. Muitas vezes até já pensaram alguma vez nisso. Gostam muito de ajudar na missa. Adoram uma batina preta com sobrepeliz rendada, mas não…. ser padre está fora de cogitação. Em alguns lugares, rapazes de vinte, vinte e cinco, trinta anos continuam servindo ao altar com alegria (e às vezes com uma vaidade que não cai bem ao evento salvífico da liturgia). No entanto, eles namoram há anos uma mesma moça, com quem têm projeto de casar. O típico casalzinho de Igreja, que antes só se via no grupo de jovens agora se vê também entre “coroas” barbados do altar e uma catequista ou uma agente da PASCOM.
O que será esse fenômeno? O que ele indica?
A primeira resposta, mais litúrgica, talvez se atribua a um tipo de missa que não encanta, ao um jeito de padre que não brilha aos olhos, mas não deve ser só isso. Paróquias vivas com padres exemplares, às vezes, não dão nenhuma vocação. A culpa não pode ser só das questões litúrgicas. Há algo mais nisso aí.
O que Deus está a mostrar nesse sinal dos tempos? Talvez que ser padre continua sendo uma vocação muito específica, que envolve muito mais do que o celebrar a missa e que, como toda vocação, precisa se reinventar a cada tempo.
Não sei bem… é preciso discernir.
Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia
