A Carta Apostólica Totum Amoris Est – “Tudo pertence ao amor”, foi publicada pelo Papa Francisco, em dezembro de 2022, na ocasião do 4° centenário da morte de São Francisco de Sales. Um excelente intérprete de seu tempo, que de uma nova maneira tinha sede de Deus, e um extraordinário diretor de almas, capaz de ajudar as pessoas a buscar o Senhor em seus corações e encontrá-lo na caridade, é desse modo que o Sumo Pontífice descreve São Francisco de Sales.
São Francisco era conhecido pelo seu temperamento forte, com um estilo de vida cheio de Deus. Sua existência cristã e seu ministério episcopal foram marcados por essa máxima: “não recusar nada, nem desejar nada”. Ao escrever sua obra mais importante, Tratado do Amor de Deus, colocou como critério decisivo da sua reflexão justamente o amor: “É o amor que dá perfeição às nossas obras. Pensai em uma pessoa que sofre o martírio por Deus apenas com uma gota de amor, tem certamente grande merecimento, já que não há dom maior do que o da própria vida; mas outra pessoa que sofra apenas um arranhão com duas gotas de amor terá um merecimento muito maior, porque a caridade e o amor é que dão valor às nossas obras”. Não foi por acaso que João Paulo II chamara São Francisco de Sales de “o Doutor do amor divino”.
São Francisco compreendia que a caridade deve tudo fazer por seus filhos. Já próximo da sua morte, ele escreveu a um sacerdote de sua diocese palavras que revelam sua visão de mundo e abertura a uma evangelização encarnada na realidade: “Devo dizer-vos que o conhecimento, que vou adquirindo dia a dia dos humores do mundo, me leva a desejar apaixonadamente que a Bondade Divina inspire a alguns dos seus servos a escrever segundo o gosto deste pobre mundo”. Segundo o santo, “o mundo está se tornando tão delicado que, em breve, já não se ousará tocá-lo senão com luvas de veludo (…); mas o que importa, desde que os homens sejam curados e salvos”.
De acordo com o Papa Francisco, o pensamento e obra de São Francisco de Sales interpela à Igreja na mudança de época que vivemos: “uma Igreja não autorreferencial, liberta sim de toda mundanidade, mas capaz de habitar no seio do mundo, de partilhar da vida das pessoas, de caminhar junto, de escutar e de acolher. Foi o que São Francisco de Sales pôs em prática, interpretando a sua época com a ajuda da graça. Por isso, convida-nos a sair da preocupação excessiva conosco, com as estruturas, com a imagem social, perguntando-nos antes quais as necessidades concretas e expectativas do nosso povo”.
Uma segunda escolha de São Francisco foi debruçar-se sobre a verdadeira devoção, o que podemos constatar na sua obra Filotéia. Para ele, a verdadeira devoção exige o amor a Deus, e se torna uma espécie de vivacidade espiritual. Portanto, a devoção não tem nada de abstrato, é um estilo de vida, um modo de estar no concreto da existência cotidiana. Explica o Papa, “congrega e interpreta as pequenas coisas do dia a dia: o alimento, e o vestuário, o trabalho e o lazer, o amor e a geração, a atenção aos deveres profissionais; em resumo, ilumina a vocação de cada um”.
Na conclusão da Carta, o Papa Francisco recorda alguns pensamentos de Santo Agostinho, que muito inspiraram o Doutor do amor divino: “Que há de mais fiel que a caridade? Fiel não efêmero, mas ao eterno. Ela tudo suporta na vida presente, pela simples razão de que acredita em tudo sobre a vida futura (…). Por isso praticai a caridade e produzi, meditando-a santamente, frutos de justiça. E, se encontrardes, em louvar dela, outras coisas que não vos tenha dito agora, que isso se veja no vosso modo de viver”.
Pe. Luiz Gustavo Sampaio Moreira
Reitor do Seminário Diocesano de Teologia
