Carta Apostólica sobre a Formação Litúrgica do Povo de Deus

Desiderio desideravi, Carta Apostólica que trata sobre o tema da formação litúrgica do povo de Deus, foi publicada no dia 29 de junho de 2022. O documento consta de 65 parágrafos e está dividido em nove subtítulos. Nele, o Papa Francisco utiliza uma linguagem teológica bem acessível e expõe com clareza as orientações do Concílio Vaticano II. Também se vale da contribuição do teólogo Romano Guardini e outros.

No início da Carta, o Papa fundamenta sua reflexão nas palavras de Jesus: “Tenho desejado comer convosco esta ceia pascal, antes de padecer” (Lc 22,15). Por meio delas, é dada a possibilidade de intuir a profundidade do amor das Pessoas da Santíssima Trindade para conosco.  Todo dom, para ser dom, deve ter alguém disposto a recebê-lo. Afirma Francisco que cada comunhão nossa com o Corpo e o Sangue de Cristo foi desejada por Ele na última ceia.

Na segunda seção, temos uma apresentação da Liturgia como lugar de encontro com Cristo. A fé cristã, ou é um encontro vivo com Ele, ou não é. Brevemente, é apresentada a Igreja enquanto Sacramento do Corpo de Cristo: “Como nos recorda o Concílio Vaticano II, citando a Escritura, os Padres e a Liturgia – os pilares da verdadeira Tradição – do Coração transpassado de Cristo morto na cruz, nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (n. 14).  Outro ponto importante diz respeito  à redescoberta da compreensão teológica da Liturgia e da sua importância na vida da Igreja, a partir dos princípios gerais enunciados pela Sacrosanctum Concilium: “participação plena, consciente, ativa e frutuosa na Celebração”.

Outro tema abordado pelo Papa é a Liturgia contra o veneno do mundanismo espiritual: O mundanismo espiritual é alimentado por duas vertentes: gnosticismo e neopelagianismo. A primeira reduz a fé cristã ao subjetivismo. A segunda anula o valor da graça para confiar somente nas próprias forças. Já a Celebração, liberta-nos da prisão da autorreferencialidade e nos purifica da presunção de uma salvação alcançada pelas próprias forças, proclamando a gratuidade do dom de Deus.

Francisco nos faz o convite para redescobrirmos a cada dia, a beleza da verdade da Celebração cristã, para que o Espírito, submergindo-nos no Mistério Pascal, transforme toda a nossa vida, conformando-nos a Cristo cada vez mais. Deve-se cuidar de todos aspectos da Celebração e cada rubrica deve ser observada, mas ainda que a qualidade e a norma da ação celebrativa estivessem garantidas, isso não seria suficiente para tornar plena a nossa participação. Também o estupor é parte essencial da ação litúrgica, porque é a atitude de quem sabe que está diante da peculiaridade dos gestos simbólicos; é a admiração de quem experimenta a força do símbolo, que não consiste em referência a um conceito abstrato, mas sim, em conter e expressar, concretamente, aquilo que significa” (n. 26).

Em suma, ao longo da Carta, o Papa Francisco aponta para a necessidade de uma séria e vital formação litúrgica do Povo de Deus. A questão fundamental é esta: como recuperar a capacidade de viver a ação litúrgica em sua plenitude? Segundo o Papa, um modo de guardar e crescer na compreensão vital dos símbolos da Liturgia é, certamente, cuidar da arte de celebrar, que não pode ser reduzida à mera observância de um aparato de rubricas e nem mesmo uma criatividade selvagem sem regras, mas se trata de permitir que a disciplina litúrgica, com seus gestos e palavras, ordene o nosso mundo interior, fazendo-nos experimentar sentimentos, atitudes e comportamentos.

 

Pe. Luiz Gustavo Sampaio Moreira

Reitor do Seminário Diocesano de Teologia

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