Bigs Brothers Brasis 2026

Sucesso de público sem bilheteria é a franquia internacional Big Brother. Surgida em 1999, na Holanda, logo se espalhou pelo mundo e já foi realizada em mais de 60 países. Curiosamente, seu idealizador, John de Mol, inspirou-se no “grande irmão” do livro 1984, de George Orwell – uma literatura ficcional, distópica e crítica. O big brother era um ditador, que via tudo que se passava, ditando regras e emanando punições. No reality show, cada telespectador faz as vezes desse irmão punidor, votando em quem fica e em quem sai da casa, com base em critérios pessoalíssimos do “fui com cara, não fui com a cara”.

            De janeiro a abril deste ano, a Globo exibiu o Big Brother 26. Ganhou uma tal Ana Paula Renault, que já tinha participado no ano de 2016 e tinha sido expulsa da casa por dar tapas em outro participante. Dessa vez, porém, ela estava diferente. Segundo os tabloides, sua figura oscilava entre uma moral controversa e um magnetismo populista: falava o que pensava, agia com astúcia por trás dos colegas e com deboche frontal com a produção do programa. Ela foi ideal para uma competição pública, ganhando as pessoas naquilo que a psicanálise chamaria uma bizarra “economia do desejo”: pulsões de maldade e egoísmo ganharam ares de charme popular e de inteligência estratégica. De repente, ela era ovacionada por seu talento (!). De repente, para alguns, ela era a cara do Brasil (!!). A custo de caos e polêmicas, ela venceu e ficou mais rica, tornando-se referência de quem sabe subir na vida (#medo #voltajesus). Fim do primeiro Big Brother 2026 (ufa… chegava o fim do mundo e não acabava esse picadeiro).

            De agosto a outubro estamos todos imersos no segundo Big Brother. Tenhamos estômago ou não, é preciso votar e os participantes já travam sua luta para ganhar o Brasil. Só que agora, o ganho de um é (ou não) o ganho de muita gente.

Além dos debates entre eles, pelo menos agora temos as entrevistas, aparentemente mais úteis (ou menos fúteis) do que as sabatinas inter-candidatos. Toda vez é um show de horrores, deixando a sensação mista de perda de tempo, entretenimento de mal gosto e lavação de roupa suja à la Casos de Família. O esterco vai para ventilador mesmo, ninguém sai limpo. O sabão em pó OMO devia aproveitar para fazer propaganda: “porque se sujar… faz bem”… Não sei se rimos da patacoada, se agonizamos no quiproquó ou dançamos o bundalelê.

            Um halloween dos trópicos? Parece. Ainda assim, é mais sério do que nossa desesperança quer fazer parecer. Só votar em branco ou votar nulo (o que dá na mesma, segundo a atual legislação eleitoral: ambos não são contabilizados) não resolverá o nosso problema. O Brasil continua uma democracia eletiva e quem tiver os votos é que vai assumir tomadas de decisão importantes. Brancos e nulos, no atual contexto, não são uma forma útil de participar dessa decisão importante que nos afeta a todos.

            Nesse reality show, é verdade que tudo é show. O problema é que depois, vem a reality. Pensa nisso…

Pe. Marcelo Henrique, reitor do Seminário de Filosofia

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