A Liturgia da Palavra: lugar do encontro com Cristo que fala

A Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II recorda que “Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7). Portanto, a Liturgia da Palavra não é uma preparação para a Liturgia Eucarística, mas parte integrante e essencial da celebração.

É na escuta da Palavra que a assembleia se deixa conduzir pelo Espírito Santo, que abre os corações para compreender o mistério celebrado. A fé nasce da escuta (cf. Rm 10,17), e por isso o momento da proclamação da Palavra é também um momento de graça, de revelação e de conversão.

  1. Estrutura da Liturgia da Palavra

A Liturgia da Palavra possui uma estrutura bem definida, que segue uma lógica pedagógica e espiritual: Deus fala, e o povo responde. A sequência é a seguinte:

  1. Primeira Leitura
  2. Salmo Responsorial
  3. Segunda Leitura (nos domingos e solenidades)
  4. Aclamação ao Evangelho
  5. Evangelho
  6. Homilia
  7. Profissão de Fé (nos domingos e solenidades)
  8. Oração dos Fiéis

Cada parte tem sua função específica e contribui para formar um todo harmônico. Vamos analisá-las uma a uma.

2.1 Primeira Leitura

A primeira leitura é geralmente tirada do Antigo Testamento, exceto no Tempo Pascal, quando é sempre retirada dos Atos dos Apóstolos. Sua função é apresentar à assembleia um aspecto da história da salvação que encontra plenitude em Cristo.

Essa leitura é proclamada por um leitor leigo, sinal da dignidade do ministério da Palavra que pertence a todo o povo de Deus. O leitor não lê apenas um texto, mas proclama uma Palavra viva, atual e eficaz. Por isso, deve preparar-se espiritualmente e tecnicamente, de modo que sua proclamação favoreça a escuta orante da assembleia.

2.2 Salmo Responsorial

O salmo é uma resposta orante à Palavra proclamada. Não se trata de um canto qualquer, mas da própria Palavra de Deus, rezada pela comunidade. A forma responsorial — em que a assembleia repete um refrão e um salmista proclama os versículos — favorece a participação ativa de todos.

O salmo traduz em oração a experiência narrada na primeira leitura e prepara a comunidade para continuar o diálogo com o Senhor. É importante que seja cantado sempre que possível, pois a música amplia a força espiritual da oração.

2.3 Segunda Leitura

Nos domingos e solenidades, a segunda leitura é retirada das cartas apostólicas ou do livro do Apocalipse. Essa leitura traz à comunidade a voz dos primeiros missionários da Igreja, testemunhas da fé pascal.

Diferente da primeira leitura, ela não está sempre em relação direta com o Evangelho do dia, pois segue uma leitura contínua de uma carta ao longo de algumas semanas. Assim, a comunidade vai sendo alimentada pela reflexão dos Apóstolos sobre a vida cristã.

2.4 Aclamação ao Evangelho

Antes da proclamação do Evangelho, a assembleia se coloca em atitude de louvor e acolhida. O canto do “Aleluia” (exceto no Tempo da Quaresma, quando se substitui por outra aclamação) é sinal de alegria e de reconhecimento: é Cristo que vai falar.

Durante a aclamação, o diácono ou o sacerdote leva o Evangeliário até o ambão. Este gesto sublinha a importância singular do Evangelho, que contém as palavras e os gestos do próprio Senhor. A assembleia se levanta, demonstrando respeito e prontidão para ouvir.

2.5 Evangelho

O ponto culminante da Liturgia da Palavra é a proclamação do Evangelho. Aqui, não se lê apenas um texto, mas se anuncia a Boa-Nova de Jesus Cristo. Por isso, sua proclamação é reservada ao diácono ou, na sua ausência, ao presbítero.

A comunidade acompanha este momento com sinais de veneração: traça sobre si o sinal da cruz na fronte, nos lábios e no peito, pedindo que a Palavra ilumine sua mente, esteja em seus lábios e habite seu coração. Ao final, responde: “Glória a Vós, Senhor”, como quem reconhece a presença viva do Ressuscitado.

2.6 Homilia

A homilia é parte integrante da Liturgia da Palavra. Não é uma palestra, nem uma simples explicação doutrinária. É atualização da Palavra de Deus para a vida da comunidade. O sacerdote é chamado a tornar o texto proclamado alimento espiritual, iluminando a realidade presente à luz do Evangelho.

O Papa Francisco insistia muito de que a homilia deve ser breve, clara e capaz de tocar o coração dos fiéis, despertando neles o desejo de viver a Palavra. Trata-se de um ministério delicado, que exige preparação, oração e proximidade pastoral.

2.7 Profissão de Fé

Nos domingos e solenidades, a assembleia responde à Palavra com a recitação do Credo. Após ouvir a revelação de Deus, a comunidade proclama sua adesão de fé, unindo-se às gerações de cristãos que, ao longo dos séculos, professaram a mesma fé apostólica.

Este momento não é apenas repetição de fórmulas, mas um ato de comunhão: todos se unem em uma só voz para afirmar que creem no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

2.8 Oração dos Fiéis

Concluindo a Liturgia da Palavra, a assembleia eleva a Deus suas súplicas. A Oração Universal — ou dos Fiéis — expressa a dimensão comunitária da fé. Depois de ouvir a Palavra, o povo responde com a oração, intercedendo pela Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem e por toda a humanidade.

Esse momento nos recorda que a Palavra nos move à missão, à solidariedade e à responsabilidade cristã no mundo.

Conclusão

A Liturgia da Palavra é mesa abundante na qual Cristo se oferece como alimento espiritual. Nela, Deus fala e o povo responde. Sua estrutura — leituras, salmo, Evangelho, homilia, profissão de fé e oração dos fiéis — não é mera formalidade, mas caminho pedagógico e espiritual que conduz a assembleia a um encontro vivo com o Senhor.

Ao valorizarmos a Liturgia da Palavra, celebrada com dignidade, silêncio, canto e participação consciente, descobrimos que a Missa é uma experiência completa de comunhão com Cristo: Ele nos fala e nos envia; Ele nos alimenta e nos transforma.

Acolher a Palavra na liturgia é deixar que ela modele nossa vida. É permitir que o mesmo Cristo, presente no Evangelho proclamado e no Pão partido, nos configure a Ele, para sermos no mundo testemunhas da esperança e do amor que não passam.

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