PERSEVERANTES NA ORAÇÃO

Neste ano, nossa Diocese desenvolveu o projeto pastoral chamado “Perseverantes no Caminho”; por ele, dedicamo-nos a refletir sobre as quatro características da comunidade cristã, apresentadas em At.2,42. Nas edições anteriores já consideramos que as primeiras comunidades cristãs eram perseverantes nos ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna e na fração do pão; hoje, concluindo esta série, veremos que também eram “perseverantes na oração”.

Quando se fala em oração, muitas vezes, já nos vem à mente aquelas orações formuladas, que aprendemos desde criança, que conhecemos e repetimos de cor. Oração não é simplesmente repetir fórmulas. Pode inclusive acontecer que repitamos fórmulas de orações sem que rezemos! Citando o profeta Isaías, que condenava o culto mecânico e vazio, Jesus diz: “Esse povo me louva com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt.15,8).

Orar é colocar-se na presença do Senhor apresentando-Lhe o que trazemos em nosso íntimo e buscando identificar, nas situações de nossa vida, o que Ele espera de nós. Santa Teresa do Menino Jesus, dizia: “Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria”. O objetivo da oração não é só pedir a Deus aquilo que precisamos ou queremos; é sobretudo disposição de configurar nossa vida ao que é agradável a Deus, ao que é de sua vontade.

São várias as maneiras de orar. A oração pode ser pessoal ou comunitária. Pode ser espontânea ou formulada. Uma maneira de rezar com orações formuladas é a “Liturgia das Horas”, utilizada pelo Clero, por Religiosos e também por muitos Leigos. São orações que consagram a Deus as diversas horas do dia, compostas fundamentalmente por Salmos e trechos da Palavra de Deus. Quando rezamos utilizando orações formuladas, temos que ter o cuidado para que não sejam palavras que saiam simplesmente dos lábios, mas não do coração. A oração também pode ser vocal ou mental. Oração vocal é a que emitimos palavras para exprimir o que se passa em nosso íntimo. A oração mental não é exteriorizada, mas se dá apenas no âmbito de nossa mente. A meditação se dá de modo semelhante, a partir de algo que nos motiva a refletir: um fato, um texto da Palavra de Deus ou um escrito de espiritualidade. Nossa oração pode ser: de adoração, louvor, súplica, intercessão ou ação de graças. A celebração da Eucaristia contém e exprime todas as formas de oração (Cat. Igreja Cat. n.2643). Que o cristão não negligencie a participação na missa dominical, mas seja perseverante nesse modo privilegiado de oração.

A oração e a vida cristã estão intimamente unidas. Não progride na vida cristã quem não se dedica à oração; pois a oração nos aproxima de Deus. Por outro lado, não progride na oração quem não se empenha em viver conforme a vontade e os ensinamentos de nosso Senhor. Assim, oração e vida cristã estão intimamente unidas, de modo que uma exige a outra. É importante, aqui lembrar o que disse Jesus: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Que a oração oriente a vida e a vida seja uma agradável oração dirigida a Deus.

Desejo concluir recordando alguns significativos ensinamentos e exemplos de Jesus sobre oração. “Ele costumava retirar-se para lugares solitários para orar” (Lc.5,16). Jesus se dedicava longamente à oração. Numa ocasião, ao cair da tarde, Jesus fez os discípulos entrarem na barca e ir para outra margem, enquanto ele foi orar na solidão. Jesus ficou em oração até a “quarta vigília da noite”, ou seja, até por volta das três da manhã e, depois disso foi encontrar os discípulos andando sobre as ondas agitadas pelo forte vento e lhes disse: “Não tenhais medo” (Mt.14,15-27). A oração nos prepara a enfrentar as tempestades da vida.  Em outra ocasião, por meio de uma parábola ao falar-lhes sobre oração, disse: “Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite clamam por ele?” (Lc.18,7). “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt.26,41). Por fim, ao pressentir a aproximação de sua morte, em profunda angustia, Jesus rezava: “Pai, afasta de mim esse cálice, contudo não se faça a minha vontade, mas a vossa” (Mc.14,36). Assim deve ser nossa oração, pedimos o que precisamos, mas acrescentamos que a vontade de Deus seja feita. Isso é confiança! Quando os discípulos pediram a Jesus, que lhes ensinasse uma oração que sintetizasse seus ensinamentos, como era prática entre os mestres de Israel, Jesus lhes ensinou o Pai Nosso. Essa é a oração dos cristãos. Na longa Tradição da Igreja temos muitos mestres e “escolas” de oração; porém, nas últimas décadas, difundiu-se um modo de rezar, mais próximo aos pentecostais que ao exemplo de Cristo e à bimilenar tradição Católica. Aprendamos como orar, considerando a prática e os ensinamentos de Jesus. Como Igreja, sejamos perseverantes na oração.

 

Dom Wilson Angotti

 

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