Neste ano, a Diocese de Taubaté, dedica-se a refletir sobre as quatro características da comunidade cristã, apresentadas em At. 2,42. Na edição anterior do Lábaro, refletimos que as primeiras comunidades eram “perseverantes na comunhão fraterna”; hoje veremos que também eram “perseverantes na fração do pão”. Essa expressão é referência ao gesto de Jesus na última ceia: “Enquanto ceavam, Jesus tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e deu aos discípulos, e disse: ‘Tomai e comei isto é meu corpo’” (Mt.26,26). Além da expressão “fração do pão”, nos primeiros anos do cristianismo, também se dizia “Ceia do Senhor” para designar a Eucaristia. A palavra “Eucaristia”, vem do grego e, literalmente, significa “dar graças”, e começou a ser utilizada ao final do primeiro século. Nessa época, registros escritos são encontrados no Didaqué, conhecido como ‘Catequese dos Apóstolos’ e nas cartas de Santo Inácio de Antioquia.
Antes de instituir a Eucaristia, Jesus preparou seus discípulos para o que Ele iria realizar. Ele os ensinava dizendo: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo… Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo.6,51.56). O que Jesus tinha anunciado aos discípulos, Ele realizou na última ceia, oferecendo-se como alimento de vida e salvação. A Eucaristia é o sacramento do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa verdade de fé que a Igreja crê e professa está apoiada na palavra do próprio Jesus, que diz: “Isso é o meu corpo … isso é o meu sangue” (Mc. 14,22.24). Ele não diz que a Eucaristia representa, recorda ou simboliza, mas que é seu Corpo; é isso que a Igreja crê e ensina.
A Eucaristia é o sacramento que Jesus instituiu na véspera de sua morte e que atualiza para nós sua entrega na ceia e na cruz. Na ceia, Jesus antecipa sua entrega na cruz, o sacrifício de nossa salvação. Cada vez que celebramos a Eucaristia nós vivenciamos esse mistério de amor de Jesus que doa sua vida por nós. Ele entrega sua vida e diz que ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida por seus amigos (cf. Jo.15,13). Ao fim da última ceia que celebrou com os apóstolos, o Senhor nos deixou uma ordem: “Façam isso em memória de mim” (Lc.22,19). Em atenção à essa ordem de Cristo e para recordar seu amor, a Igreja celebra diariamente a Eucaristia, em especial aos domingos, dia da ressurreição do Senhor. Não participar da celebração eucarística é menosprezar a expressão máxima do amor de Cristo por nós; é responder com indiferença àquEle que dá a vida por nós. A Eucaristia é o sacramento do amor de Cristo, que alimenta o amor da Igreja.
Quem participa da Eucaristia expressa um amor de correspondência àquEle que por primeiro nos amou e se entregou por nós. Ao receber a Eucaristia, nós somos unidos e transformados naquEle que recebemos e, portanto, somos santificados. O Concílio Vaticano II afirma que: “Ao participar do Corpo do Senhor, na fração do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós. Porque há um só pão, nós que somos muitos, formamos um só Corpo, visto que participamos todos do único pão (I Cor. 10,17). E deste modo nos tornamos todos membros desse corpo, sendo individualmente membros uns dos outros” (LG 7). A Eucaristia é o sacramento da comunhão, pois, além de nos unir a Cristo, estabelece e aprofunda a comunhão na Igreja. Quanto mais unidos a Cristo, mais unidos estaremos entre nós.
Neste sentido, a expressão “partir o pão” nos remete também a um compromisso de partilha com os necessitados. Os primeiros teólogos do cristianismo, designados como “Santos Padres”, apresentavam a mesa eucarística em correlação com os necessitados; uma realidade não pode ser separada da outra. Seria uma incoerência celebrar a Eucaristia e desconsiderar as necessidades dos irmãos, pois é o mesmo Senhor que se faz presente no Sacramento e na carne do irmão. São João Crisóstomo, por exemplo, escreve: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir … Aquele que disse: ‘Isto é meu Corpo’ também afirmou: ‘Viste-me com fome e não me destes de comer’ … De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra” – (S. João Crisóstomo, Homília sobre Evangelho de Mateus). São João Paulo II, na encíclica Ecclesia de Eucharistia (n.20), diz que é indigna de participar da Ceia do Senhor a comunidade que é indiferente com os pobres. Sejamos, pois, perseverantes na fração do pão junto ao altar e junto aos necessitados.
Dom Wilson Angotti
