Neste ano, nossa Diocese, reflete sobre as quatro características da comunidade cristã, segundo o que é apresentado em At. 2,42. A seguir, vamos considerar a primeira delas: os primeiros cristãos eram perseverantes nos ensinamentos dos apóstolos.
Jesus Cristo edificou sua Igreja sobre o alicerce dos apóstolos. Estes foram escolhidos pelo próprio Jesus. Ao longo de alguns anos, Jesus ensinou seus apóstolos em vista à missão que lhes confiaria. Imaginemos o encantamento dos apóstolos ao escutarem com admiração tudo o que Jesus lhes ensinava! Eram ensinamentos que se distinguiam daqueles dos mestres de Israel: “… as multidões ficaram extasiadas com sua doutrina; porque Ele as ensinava com autoridade e não como os escribas” (Mt.7,28-29). Aos apóstolos Jesus ensinava coisas que não ensinava às multidões. Ao povo, Jesus “anunciava a Palavra por meio de muitas parábolas, conforme podiam entender; e nada lhes falava a não ser por parábolas. A seus discípulos, porém, explicava tudo em particular” (Mc.4,33-34). Vemos, pois que os apóstolos foram discípulos privilegiados em receber os ensinamentos de Jesus. Certamente eles escutavam com atenção e guardavam na mente e no coração tudo aquilo que aprendiam de Jesus. Após a ressurreição, Jesus os enviou em missão, dizendo: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos meus, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt.28,18-20).
Assim sendo, depois da ressurreição de Jesus, com a força e a graça do Espírito Santo, os apóstolos saíram mundo afora, anunciando tudo o que aprenderam de Jesus e fazendo discípulos. Nós nos tornamos discípulos de Cristo quando nos dispomos a aprender, a viver e a perseverar em tudo o que Ele nos ensinou. Isso exige disposição em escutar e persistência em nos deixar formar como discípulos. A paróquia é lugar privilegiado para essa formação, que não pode ser ocasional, mas deve ser permanente. Se os Apóstolos tivessem desconsiderado os ensinamentos de Jesus, eles teriam comprometido a transmissão da fé. Quem hoje não participa da formação oferecida compromete sua vida e sua missão cristã.
Atualmente, temos muita dificuldade em escutar. Quando muito, ouvimos alguém que nos fala enquanto vemos alguma coisa ou enviamos uma mensagem pelo celular. Ouvimos rádio ou televisão enquanto realizamos alguma tarefa doméstica. Em sala de aula, professores se reinventam para conquistar e manter a atenção dos alunos. Na igreja, é um desafio fazer com que as pessoas, ao saírem de uma celebração, recordem as leituras da Palavra de Deus ou o que foi dito na homilia. Em nossos dias, temos que disputar a atenção das pessoas com inúmeros estímulos que as levam distantes de si mesmas.
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, seu discípulo e colaborador, já fazia uma grave advertência, ao dizer: “chegará um tempo em que alguns não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, segundo seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, arrumarão mestres para si. Desviarão os seus ouvidos da verdade, orientando-os para fábulas” (2Tm.4,3-4). Atualmente, há na Igreja aqueles que deixam de ouvir os padres, os bispos e até o Papa para seguirem influenciadores digitais. Seguem aqueles que dizem o que desejam ouvir. Certamente, agindo assim, desvirtuam a fé cristã e só dão valor ao que coincide com o que pensam. A internet, orientada pela engenharia dos algoritmos, os faz viver numa bolha ao oferecer-lhes somente aquilo pelo qual se interessam; não os confronta com o que é diverso, nem tem intenção de indicar-lhes o que é verdadeiro. Algoritmo não tem ética nem compromisso com a verdade.
Fiel a Jesus a Igreja, por meio da formação permanente, se empenha em instruir os fiéis na fé, propondo-lhes tudo o que recebeu do Senhor e que nos foi transmitido pelos Apóstolos. Essa transmissão se conservou nos escritos do Novo Testamento e em tudo aquilo que a Igreja, através dos séculos, crê, vive, reza e professa como verdade. A esse conjunto de verdades chamamos de Tradição (que é diferente de tradições e de tradicionalismo). Para interpretar esse depósito da fé, a Igreja conta com o Magistério Eclesiástico, que é constituído pelo Sumo Pontífice e pelos Bispos em comunhão com ele. O Papa e os Bispos são os que têm, na Igreja, a autoridade de ensinar. Parafraseando Jesus, podemos dizer que: quem é da verdade ouve essa voz (cf. Jo.18,37). Perseverar no ensinamento dos apóstolos é um dos elementos que caracteriza a Igreja de Jesus Cristo.
Dom Wilson Angotti
Bispo Diocesano
