Filosofia de Futebol

Parecia que dessa vez iria dar certo. Não deu. Ficamos nas oitavas de final de novo. A Noruega foi paciente, com o jogo parecendo uma esgrima: avança, volta, avança, volta… touché! A guerra de bola contra o Japão, por sua vez, ficou entre uma coreografia de palácio e uma batalha digna de samurais. Primeiro, um vai e vem dançado, com ataques tímidos e defesas leves. Depois, em horas mais corajosas, as barreiras asiáticas segurando os disparos latino-americanos. Contra a Noruega, porém, foi ataque versus ataque, um espetáculo de impetuosidades estratégicas. O Brasil, no entanto, perdeu. O silêncio daquela noite de domingo foi cortante, sem gritos, sem fogos, sem festa. Pena, domingo é dia de festa… mas não foi dessa fez.

Jogo terminado, começa o terceiro tempo. Opiniões cruzadas, discussões acaloradas, lamentos de uma esperança ferida. Alguém disse por esses dias que “para o brasileiro, futebol é sentimento”. É mesmo. Não desses superficiais, não, mas daqueles de subsolo, de raiz, das profundezas do coração. Mexer com futebol é mexer com a alma. Perder no futebol é sentir algo parecido com a morte. Não ver o país ganhar é perder as esperanças no presente da nação. Chuteiras e gols mobilizam a fé histórica do nosso povo: dá para “acreditar de novo”, cantaram várias propagandas por esses dias de copa.

Curioso que, entre o choro e o retorno à rotina, algumas conversas foram além do campo e analisaram a política futebolística. Falou-se de corrupção na FIFA, de apadrinhamento imoral, de venda da alma do futebol para o mercado, de desrespeito ao nosso povo. De repetente, futebol virou política e as pessoas estavam lá, unindo as vozes contra esquemas malandros e pedindo justiça e progresso para a nossa sofrida gente. A esperança deixou de ser bibelô de enfeite e se tornou grito de novo, ânsia de vida, coragem popular.

Por alguns instantes, a questão não era mais Lula ou Bolsonaro e ninguém se acusou de esquerdopata ou reaça. A turma fez política fora dos rótulos, graças à paixão do futebol. Lembrando que somos um só povo, costuraram-se os rasgos do tecido social, ainda que só por algumas horas. O tema do futebol favoreceu um debate menos viciado, mostrando um povo apaixonado pelo seu país.

O futebol ensina sempre um “quarto tempo”. Após as duas partidas do jogo e a conversação esportiva, emerge “do povo heroico o brado retumbante”. Vai, Brasil!

 

Pe. Marcelo Henrique de Souza
Reitor do Seminário de Filosofia

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