”Transfiguração” da Família pela Oração

“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz”. (Lc 9, 36)

Em atenção ao projeto pastoral de nossa Diocese, dediquei os artigos, apresentados ao longo deste ano, neste espaço, a refletir sobre a responsabilidade da família em ser ambiente para a iniciação à fé e à vida cristã. Servindo-me do evangelho próprio da festa da Transfiguração do Senhor, celebrada neste mês, aproveito alguns de seus elementos para retomar e concluir a reflexão, que teve como proposta conscientizar que a família, servindo-se da leitura orante da Bíblia, deve ser iniciadora da fé e da vida cristã.

O trecho do evangelho da Transfiguração (Lc 9, 28-36) começa com a indicação de que “Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar”. Jesus poderia ter ido sozinho, mas levou consigo aqueles discípulos que lhe eram mais próximos. Em geral, a oração não é algo natural e espontâneo em nós. Assim como Jesus levou seus discípulos, também nós temos que ser conduzidos e orientados à oração; está é uma expressão de fé, uma atitude que diz respeito à esfera sobrenatural. A montanha é símbolo da proximidade com Deus; o ato de subir a montanha expressa a decisão, a disciplina e o esforço necessários à oração. Esta tem que ser um ato da vontade, uma atitude querida e buscada que, para ser atingida, exige esforço.

O evangelho continua e diz que: “enquanto rezava, seu rosto (de Jesus) mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”. Colocando-nos em oração somos “transfigurados”. A proximidade com Deus faz com que nos assemelhemos a Ele, pois essa proximidade vai nos burilando à medida que vamos conhecendo e nos configurando à sua vontade. Aprenderemos a viver a misericórdia, o perdão, o serviço generoso, o amor, etc. Ensinando o catecismo, São João Maria Vianney diz que: “Nesta íntima união que se dá pela oração, Deus e a alma são como dois pedaços de cera, fundidos num só, de tal modo que ninguém pode mais separar”. Assim como as vestes de Jesus brilhavam, unidos a Ele, refletiremos sua luz àqueles com os quais nós convivemos.

“Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias”. Esses dois personagens bíblicos, o legislador e o profeta, representam as leis e as profecias, que compõem o Antigo Testamento. A exemplo de Jesus, também nós poderemos contemplar nossa vida e rezar a partir da Sagrada Escritura. A leitura orante da Bíblia, tal como propomos para ser feita em família, ao menos semanalmente, consiste em três passos: 1- ler um texto da Palavra de Deus, tomado do evangelho ou de uma das cartas dos Apóstolos, que pode ser lida do começo ao fim, tomando um breve trecho por vez; 2- partilhar o que Deus nos inspira pela leitura, sem ter a pretensão de ensinar ou dar lição aos outros; 3- rezar espontaneamente, pedindo, louvando ou agradecendo, a partir daquilo que Deus nos inspirou pela leitura de sua Palavra. Isso seja feito não individualmente, mas com aqueles que nos são próximos, em família.

“Eles conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. A oração nos prepara e nos dá condições para enfrentarmos os desafios e adversidades que a vida nos reserva. Unidos a Deus teremos força para tudo enfrentar. O cristão que não reza será “anêmico” na vida cristã e muito mais sujeito a fraquejar diante das dificuldades que surgirem.

“Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem viram a glória de Jesus”. Quando nos dedicamos à oração, certamente, temos que enfrentar muitos desafios. Os discípulos que estavam com Jesus tiveram que enfrentar o sono. Nós talvez tenhamos que enfrentar os diversos apelos que nos vêm pelo celular, pela TV, pelo computador, pelo cansaço, pelas preocupações cotidianas, pelas distrações, etc. e que nos distanciam de nós mesmos e do encontro com Deus. Superando o sono ou os obstáculos que nos atrapalham na oração será possível contemplar a “glória de Jesus” e desfrutar da alegria de estar em sua presença.

De modo semelhante àqueles Apóstolos, também nós, desfrutando daquilo que a oração nos proporciona poderemos dizer: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas…”. Aqueles que, inicialmente, precisaram ser levados à oração, depois de fazerem essa experiência, desejam permanecer naquela agradável situação de proximidade com o Senhor. Assim também na família, alguém terá que tomar a iniciativa e conduzir os outros; porém, depois da experiência pessoal do encontro com Deus, teremos despertado em nós o desejo de permanecer com Ele.

O texto da perícope litúrgica se conclui ao dizer que “uma nuvem os cobriu e … da nuvem saiu uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz’”. A nuvem é referência simbólica à esfera do sagrado. A oração nos eleva ao encontro do Senhor. Nessa situação percebemos que é preciso ouvir o Senhor, pois só Ele tem palavra de vida eterna (Jo 6,68). Rezar com a Palavra de Deus é uma maneira privilegiada de ouvir o que o Filho nos diz. Não deixemos de fazê-lo.

Acolhamos esse insistente convite de “subir à montanha” e ouvir o Filho amado para que, pela escuta de sua Palavra, a fé seja gerada e nutrida em nós e, assim, possamos produzir muitos e bons frutos de vida cristã. Esses passos que aqui fizemos, no desenvolvimento deste artigo, meditando os vários elementos do texto bíblico, é um exemplo do que pode ser feito no exercício de leitura orante da Bíblia. Fica, pois, o pedido e o convite para que tal prática seja assumida e regulamente realizada, num ambiente de oração, em cada família cristã, para que sejam iniciadoras da fé.

Dom Wilson Angotti