O presépio ocupa espaço?

De novo, é dezembro e, de novo, é Natal. Apesar do “espírito de Natal” consumista e pagão seduzir os olhares e os corações muito mais do que o verdadeiro sentido do Natal, que é a celebração do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, há muitos cristãos que resistem e seguem testemunhando sua fé. Porém, mesmo entre tais cristãos, há algo a se considerar: o declínio da prática de armar presépios em suas casas.

No começo deste dezembro, o Papa Francisco publicou uma carta apostólica intitulada Admirabile signum (sinal admirável) sobre o significado e o valor do presépio. A reflexão apresentada pelo Papa enfatiza a importância de se promover e incentivar a tradição dos presépios entre os cristãos como um ato de fé e um costume louvável para lembrança e meditação do grande mistério da Encarnação do Filho de Deus. Teoricamente, nada disso deveria ser novidade para os cristãos. Contudo, se o Papa abordou tal assunto, sem motivo é que não foi.

Que não se vejam presépios nos grandes templos do consumo, é perfeitamente compreensível: de fato, os cenários natalinos clássicos ou modernos não têm espaço para o Menino Jesus reclinado na manjedoura. Montam-se lareiras de caixas de papelão num país tropical para tentar recriar um imaginário natalino concebido no inverno do hemisfério norte, mas o presépio não está presente. Os ensaios fotográficos têm por cenário um fundo clean e arrancam suspiros e curtidas diante de fofuras exuberantes… mas, o presépio, esse não! Admiram-se crianças e pets vestidos com gorros vermelhos, mas há um mal-estar perante a representação do Deus feito criança na manjedoura.

Entretanto, que há de novo nisso? Não é de hoje que São Nicolau se tornou Papai Noel, o grande garoto propaganda de um Natal paganizado e, portanto, sem sentido – como, aliás, nota-se cada vez mais, já que o consumismo, combustível deste Natal sem Deus, não se restringe mais à essa época, mas está presente “de janeiro a janeiro, até o mundo acabar”.

O que preocupa é a perda do costume de se armar o presépio nas casas dos fiéis católicos. Sobre isso debruça-se a presente reflexão. Não são poucos os que argumentam que não há espaço nas suas residências para fazer um presépio. Outros dizem que é muito trabalhoso montar presépios e, recordando-se com nostalgia de seus pais e avós, limitam-se a colocar as imagens mais ou menos dispostas em algum móvel da casa, igualando-as aos bibelôs ultramodernos, mas em paz com sua consciência e satisfazendo seus saudosismos. Quando ainda se montam presépios, mesmo entre os que adquirem belas imagens em refinadas lojas, os mesmos são mais elementos decorativos estilizados do que locais para a oração em família. Não se poderia esquecer, também, dos que preferem o aconchego dos animais de estimação do que relembrar a cena do nascimento do Salvador, justificando-se, sempre, com argumentos que lhes assosseguem a consciência dominada pelo minimalismo disfarçado de sobriedade.

Sem pretender emitir juízos, perguntemos, destemidamente: afinal de contas, porque o presépio é tão indesejado – mesmo entre os que, ainda, o armam em suas casas sob o argumento de falta de espaço e incômodo? Talvez seja porque em nossas casas meticulosamente planejadas, reflita-se o ideal de uma vida individual e social planejada para acontecer sem Deus, ou, no máximo, fazendo com que Ele se encaixe na decoração que optamos por introduzir em nossas residências.

Por detrás da ausência de um símbolo, certamente, há uma realidade significante que se faz presente: alterar a rotina de uma casa para que o foco central seja a lembrança do nascimento de Deus feito homem na pobreza pode ser demais para cristãos que dizem não saber viver sem Jesus, mas pouco se importam com o Evangelho na vivência do cotidiano.

Oxalá o apelo do Papa Francisco chegue ao coração dos católicos, tanto os pastores quanto os fiéis: que os presépios em nossas casas, mesmo sendo simples, sejam verdadeiros locais de oração e meditação para as nossas famílias, colaborando com a transmissão da fé nas mesmas. Que nossas famílias, dando espaço aos nossos presépios nas casas, deem mais espaço a Deus em suas rotinas, aprendendo d’Ele os verdadeiros valores que nos dão muito mais do que meramente “boas festas”: dão a eternidade a salvação. Espaço para os presépios, espaço para Deus. Feliz Natal – com um espaçoso presépio!

Pe. Celso Luiz Longo

Fonte: Jornal O Lábaro – edição dezembro 2019