A vida não é como uma moeda de dois lados

Assim como a terra é redonda, de modo que é possível ver diferentes constelações no céu noturno, a vida é feita de muitas possibilidades. Não é como a moeda onde se percebe apenas dois lados, restando apenas a ínfima porção da borda para quem não se identifica com cara nem com coroa.

Em tempos de polarizações, sobre tudo e qualquer coisa, a visão de muita gente se achatou aos horizontes de uma moeda. Ou um lado ou outro. A borda nem sequer é percebida.

Há quem refute incondicionalmente o diálogo e se esforce enormemente para que não exista nada fora de dois campos ideológicos possíveis: ou é a favor ou está contra. Nós contra eles.
Se é preciso ter um lado no que se refere a organização da sociedade, como muitos insistem em exigir, então escolho o lado do Direito, onde:

1- todos são iguais perante a lei;
2- toda pessoa acusada é inocente até que se prove o contrário;
3- a toda pessoa acusada seja dada possibilidade de ampla defesa;
4- que toda pena aplicada seja proporcional a culpa imputada;
5- se há dúvida razoável e se a lei não estabelece, ninguém seja condenado.

Em um Estado de Direito e Democrático, os direitos de uma pessoa estão baseados em princípios e não apenas em normas legais. Menos ainda, os direitos fundamentais de uma pessoa dependem da vontade ou opinião desse ou daquele indivíduo.

Deste modo, os direitos de uma pessoa não podem ser diminuídos por leis ou opiniões, até porque direitos são garantias da pessoa e não um favor do Estado ou obséquio de alguém. Tais princípios fundamentais, portanto, obrigatoriamente devem ser contemplados pela lei, se esta se pretende de Direito.

Na política, se uma proposta não fere direitos fundamentais e não prejudica um segmento de pessoas em seus direitos básicos, principalmente os mais vulneráveis, não há porque ser contra essa proposta, seja de governo ou de reforma econômica.

As necessidades do povo devem vir antes dos interesses de classes. O direito e o bem de todos na nação vêm primeiro que opiniões pessoais ou ideológicas. Partidos são associações de políticos que comungam de uma mesma visão de como governar o país, mas a sua missão, como a vocação de todo político, é promover o bem comum de todos no país.

Às vezes é preciso perder para que todos ganhem. É preciso diminuir para que o povo cresça.

Isso é bem coisa de estadista, atributo com o qual todo político deveria sonhar em ser aprovisionado.

Procurar o bem do outro antes de si mesmo, essa é uma atitude cristã que deve ser buscada por quem segue o evangelho.

Pe. Silvio José Dias

Fonte: Jornal O Lábaro edição novembro de 2019