Uso do Evangeliário em todas as Celebrações Dominicais – Um luxo?

Dando continuidade à nossa reflexão sobre os ritos próprios da Liturgia da Palavra, neste mês refletiremos acerca da importância do Evangelho. Iniciamos com uma citação da introdução do Lecionário:“Como a proclamação do evangelho é sempre o ponto culminante da Liturgia da Palavra, a tradição litúrgica, tanto no Ocidente como no Oriente, desde sempre estabeleceu uma certa diferença entre os livros das leituras. Com efeito, o Livro dos Evangelhos, elaborado com um maior cuidado, era adornado e gozava de veneração superior à dos demais livros litúrgicos. É, pois, muito conveniente que, também em nossos dias, pelo menos nas catedrais, nas paróquias e igrejas maiores e mais frequentadas, haja um Evangeliário, ornado com beleza e distinto de qualquer outro livro de leituras”. (Introdução geral ao elenco das leituras na missa, nº 36)
A proclamação do Evangelho constitui o ponto alto da liturgia da Palavra, para o qual a assembleia se prepara com as demais leituras, na ordem indicada, isto é, a partir do Antigo Testamento até chegar ao Novo. Há como um “crescendo” até seu ápice: o próprio Cristo-Palavra que passa por entre os seus para anunciar-lhes palavras de vida eterna, aclamado com o “aleluia”, o canto dos homens novos.

O uso do Evangeliário está prescrito pelo Missal Romano, pela Introdução do Lecionário, bem como pela recente Exortação Apostólica Verbum Domini de Bento XVI para todas as festas e solenidades – logo, para todos os Domingos do ano, pois todo Domingo constitui-se como solenidade!

Nos ritos iniciais, na procissão de entrada de todas as missas dominicais e demais solenidades e festas, o Evangeliário deverá ser transladado solenemente à frente dos ministros ordenados e depositado no centro do altar, seja pelo Diácono, seja, em sua falta, pelo primeiro Leitor. Tal prescrição encontra-se tanto no missal (82-84), quanto na Introdução geral do Lecionário nº 17. Essa deposição equivale praticamente a uma “entronização” (semelhante à “exposição” do Santíssimo Sacramento sobre o altar. Semelhante, não equivalente!).

Se na procissão de abertura da celebração o Evangeliário deve ser levado pelo Leitor, na falta do Diácono (ministro ordinário da proclamação do Evangelho), na procissão do altar até o ambão, durante o canto de aclamação a Cristo por meio do “Aleluia” convém que o livro seja tirado do altar por um diácono ou, se não houver diácono, por um sacerdote concelebrante ou então por aquele que preside, e seja levado ao ambão, acompanhado ou não pelos ministros que levam velas, incenso ou outro sinal de veneração a Cristo Palavra. O significado desse rito é claro: Quando o diácono ou sacerdote tira o Evangeliário de cima do altar, sinal do Cristo, dá a entender de modo magnífico que as palavras que vai proclamar não são suas, mas de Jesus. “O Cristo fala, diz o Concílio (SC 7), quando se lêem as santas Escrituras”. É essa afirmação que o rito de exposição do Evangelho salienta majestosamente. O altar é também o centro da assembléia celebrante. É pois nesse centro que se enraíza a palavra de Jesus. É desse centro que ela se irradia sobre a comunidade.

Neste momento também os fiéis estão de pé e entoam suas aclamações ao Senhor com o canto do “Aleluia”. Ainda segundo as indicações contidas no Ordenamento das Leituras da Missa, é bom valorizar a proclamação da Palavra de Deus com o canto, particularmente o Evangelho, de modo especial em determinadas solenidades. A saudação, o anúncio inicial: “Evangelho de Nosso Senhor…” e a exclamação final “Palavra da salvação”, seria bom sempre proferi-los em canto para evidenciar a grandeza do que será lido, exprimindo a importância da leitura evangélica e promovendo a fé dos ouvintes que mais uma vez aclamam o seu Senhor.

Exposição permanente do Evangeliário na Igreja:  uma proposta do Sínodo dos Bispos, um pedido do papa Bento XVI

Particularmente significativa é a exposição do Evangelho na igreja antes da celebração: os fiéis, ao entrarem no templo, são assim de certo modo acolhidos pelo Cristo. Nesse espírito é que certas comunidades de ritos orientais conservam o Evangeliário entronizado no altar, mesmo fora das ocasiões de celebração. Seria excelente, que esse costume se generalizasse no nosso rito romano, cumprindo inclusive um mandato de nosso atual pontífice Bento XVI: “Os espaços sagrados, mesmo fora da ação litúrgica, revistam-se de eloquência, apresentando o mistério cristão relacionado com a Palavra de Deus, dando-se atenção especial ao ambão, enquanto local litúrgico donde serão proclamadas as leituras. Além disso, os padres sinodais sugerem que, nas igrejas, haja um local de honra onde se possa colocar a Sagrada Escritura mesmo fora da celebração. Realmente é bom que o livro onde está contida a palavra de Deus tenha dentro do templo cristão um lugar visível e de honra, mas sem tirar a centralidade que compete ao sacrário que contém o santíssimo sacramento” (Verbum Domini 68). Uma alternativa seria ter junto à entrada principal de nossas Igrejas um espaço estável, digno e belo que expusesse o Evangeliário diuturnamente, e deste local fosse transladado pelo diácono ou pelo Leitor no início de cada celebração Dominical até o altar.

Pe. Roger Matheus