Rumo ao Sínodo para a Amazônia. Entrevista com cardeal Cláudio Hummes

De 06 a 27 de outubro acontece no Vaticano o Sínodo Pan-Amazônico convocado pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017 com o objetivo de refletir sobre os caminhos para a evangelização na região amazônica, com uma especial atenção aos povos indígenas. Em vista disto, O Lábaro reproduz aqui recortes da entrevista com o Dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e escolhido pelo Papa Francisco como relator geral do Sínodo, concedida ao Pe. Antonio Spadaro, SJ, publicada originalmente por La Civiltà Cattolica.

A entrevista completa pode ser lida no site do Instituto Humanitas Unisinos, em http://www.ihu.unisinos.br.

*Eminência, estamos nos aproximando do Sínodo para a Amazônia, um grande evento eclesial que coloca no centro da reflexão uma área específica e particular do mundo, embora ampla e de incrível riqueza e complexidade. Precisamente por isso, há quem expresse preocupação com o possível impacto que o Sínodo para a Amazônia pode ter na unidade da Igreja, dada a particularidade dessa realidade territorial tão ampla, complexa e diversa.

– Hoje fala-se muito da unidade da Igreja. Isso é fundamental, muito importante. Mas deve ser entendido como uma unidade que acolhe a diversidade de acordo com o modelo da Santíssima Trindade. Isto é, igualmente necessário é enfatizar que a unidade nunca pode destruir a diversidade. Precisamente, o Sínodo acentua a diversidade dentro dessa grande unidade. A diversidade é a riqueza da unidade, preserva-a de ser uma uniformidade e uma justificativa para o controle.

*A diversidade é importante para a Igreja?

– Hoje, mais do que nunca, a Igreja esteve aberta à diversidade. Os países latino-americanos da Pan-Amazônia são hoje uma expressão da diversidade latino-americana, que deve ser acolhida sem medo e de maneira muito aberta pela Igreja da Europa e pelo mundo inteiro. De fato, queria enfatizar isso porque o Sínodo para a Amazônia é um reconhecimento de nossa peculiaridade. Eu digo assim: a Igreja da América Latina pode trazer novas luzes para a Igreja da Europa e do mundo, assim como a Igreja da Europa deve nos dar luzes antigas e muito importantes. A diversidade não ameaça a unidade da Igreja, mas fortalece sua verdadeira unidade. É muito importante não ter medo dessas coisas. Então, se falamos e encontramos novos caminhos para a Igreja na Amazônia, isso vai beneficiar toda a Igreja, mas sempre a partir da reflexão específica sobre a Amazônia.

* O sínodo está caracterizado pela sua capacidade de ouvir e superar a mentalidade de “marcos” e “planos”?

– Para realmente “ver” é necessário ouvir, não basta fazer uma análise do que é a Amazônia, ou quem é a Igreja na Amazônia. Um sínodo não é uma abstração sinodal, uma ideia genérica. Para nós, é necessário ouvir primeiro os povos da Amazônia. Você tem que ouvir a realidade, ouvir os gritos. Isso já enriqueceu muito a nossa metodologia de ver, julgar e agir. Nosso “ver” não era mais o de um analista que, de longe, examina a situação. Nós começamos a realmente ouvir. Francisco fala frequentemente de processos novos, de caminhar, de não deter-se a repetir o passado, mas sim de aderir à tradição que cresce e que faz crescer sem ter que repetir sempre as mesmas coisas. Conseguiram? É possível? Certamente não estaremos no Sínodo para repetir coisas que já foram ditas, não importa se são importantes, bonitas e partam de uma boa teologia. Estaremos ali para procurar novos caminhos. (…) Essa palavra do papa é muito forte: devemos caminhar e não resistir a avançar e ir adiante. Devemos confiar no Espírito que nos leva para frente, diz o papa. Desde o início do seu pontificado ele exorta e motiva a Igreja a se levantar e não ficar acomodada e demasiado segura de sua teologia, de sua visão das coisas, defendendo-se do mundo. O passado não está petrificado, deve formar sempre parte da história, de uma tradição que segue para frente. Cada geração deve seguir avançando para contribuir para a riqueza dessa grande tradição. Conseguiremos? Confiaremos no trabalho do Espírito.

* Como se situa a Igreja diante das populações indígenas? Como se deve entender a evangelização desses povos?

– A inculturação da fé e o diálogo inter-religioso são necessários, pois é uma verdade que também nos povos indígenas originários Deus esteve sempre presente em suas formas e expressões próprias e em sua história. (…) A evangelização dos povos indígenas deve ter como objetivo suscitar uma Igreja indígena para as comunidades indígenas. Na medida em que os povos indígenas acolhem Jesus Cristo, devem poder expressar essa fé desde a sua cultura, identidade, história e espiritualidade. Quais resistências estão gerando essa visão sobre a Igreja indígena nos distintos espaços e no caminho para o Sínodo? Está provocando resistência e também mal-entendidos. Alguns se sentem ameaçados de alguma forma, porque não se sentem considerados em seus projetos e ideologias. Eu diria, sobretudo, os projetos de assentamento na Amazônia que continuam fortemente com o espírito dominante e predatório: vem para explorar e, em seguida, sair com os bolsos cheios, deixando a degradação e a pobreza para o povo local que, então, estará mais pobre e com o seu território devastado e contaminado. A indústria, a agricultura e muitas outras formas de produção afirmam cada vez mais que sua atividade é “sustentável”. Mas o que realmente significa “ser sustentável”? Significa que tudo o que extraímos da terra ou devolvemos à terra como lixo não impede que a Terra se regenere e permaneça fértil e saudável. É muito importante reconhecer essas resistências na Igreja, fora dela, por exemplo, em governos, empresas e outros lugares. Precisamos reconhecer como nos comportarmos diante dessas resistências, sabermos o que fazer.

* Por que essas resistências? O que as produzem?

– Os interesses econômicos e o paradigma tecnocrático repelem qualquer tentativa de mudança e estão dispostos a se impor pela força, violando os direitos fundamentais das populações no território e as normas para a sustentabilidade e preservação da Amazônia. Mas não devemos desistir. Será necessário ficar indignado. Não uma violenta indignação, mas firme e profética.

Fonte: Jornal O Lábaro – edição setembro de 2019