Papa aos bispos colombianos: nenhum muro é eterno, nenhuma chaga é incurável

Bogotá – “A Colômbia precisa da vossa visão, própria de Bispos, a fim de a apoiar na coragem do primeiro passo para a paz definitiva, a reconciliação, o repúdio da violência como método, a superação das desigualdades que são a raiz de tantos sofrimentos, a renúncia ao caminho fácil mas sem saída da corrupção.”

É uma das passagens fortes do aguardado discurso do Papa Francisco no encontro com os bispos colombianos (cerca de 130), realizado no Palácio Cardinalício de Bogotá, em seu terceiro compromisso esta quinta-feira (07/09).

Num discurso amplo e articulado em várias questões concernentes aos desafios aos quais os bispos colombianos são chamados a responder como pastores do povo de Deus, Francisco foi bastante exortativo e enfático ao dizer que não trazia receitas nem queria deixar para eles uma lista de tarefas.

Já em suas primeiras palavras no discurso aos bispos, o Pontífice deu o tom desta sua visita pastoral ao país andino: “Venho anunciar Cristo e, em seu nome, realizar um caminho de paz e reconciliação. Cristo é a nossa paz! Reconciliou-nos com Deus e entre nós!”

“Por isso, como peregrino, me dirijo à vossa Igreja. Sou vosso irmão, desejoso de partilhar Cristo ressuscitado, para Quem nenhum muro é eterno, nenhum medo é indestrutível, nenhuma chaga é incurável.”

Guardiões e sacramento do primeiro passo

“«Dar o primeiro passo» é o lema da minha visita e constitui também a minha primeira mensagem para vós. Bem sabeis que Deus é o Senhor do primeiro passo. Ele sempre nos antecede”, disse Francisco.
Deus nos precede sempre: somos os ramos e não a videira. Portanto, “não silencieis a voz d’Aquele que vos chamou, nem vos iludais de que sejam a soma das vossas pobres virtudes ou os elogios dos poderosos de turno que asseguram o resultado da missão que Deus vos confiou”, exortou o Papa.

Francisco lembrou aos bispos que a oração na vida deles é a seiva vital que passa através da videira, sem a qual o ramo murcha tornando-se infrutífero.

Tornar visível a identidade do bispo de sacramento do primeiro passo de Deus

“Na verdade, tornar palpável a identidade de sacramento do primeiro passo de Deus exigirá um êxodo interior contínuo. «De fato não há convite para amar mais eficaz do que ser os primeiros a amar»”, pelo que nenhum campo da missão episcopal pode prescindir desta liberdade de realizar o primeiro passo.” Dito isso, o Bispo de Roma fez a seus irmãos no episcopado mais uma forte exortação:

“Não vos meçais com o metro daqueles que quereriam que fósseis apenas uma casta de funcionários submetidos à ditadura do presente. Ao contrário, mantende o olhar sempre fixo na eternidade d’Aquele que vos escolheu, prontos a receber o julgamento decisivo dos seus lábios.”

Lançando olhar para a multifacetária realidade eclesial colombiana, disse:

“Na complexidade do rosto desta Igreja colombiana, é muito importante preservar a singularidade das suas diferentes e legítimas forças, as sensibilidades pastorais, as peculiaridades regionais, as memórias históricas, as riquezas das peculiares experiências eclesiais.”

“Procurai com perseverança a comunhão entre vós. Nunca vos canseis de a construir através do diálogo franco e fraterno, condenando como uma peste os projetos escondidos. Sede solícitos a dar o primeiro passo, de um para o outro. Antecipai-vos na disponibilidade a compreender as razões do outro”, acrescentou pedindo ainda aos bispos que tenham uma sensibilidade particular para com as raízes afro-colombianas de seu povo, que tão generosamente têm contribuído para desenhar o rosto desta terra.

Tocar a carne do corpo de Cristo

“Convido-vos a não ter medo de tocar a carne ferida da vossa história e da história do vosso povo. Fazei-o com humildade, sem a vã pretensão de protagonismo mas com o coração indiviso, livre de comprometimentos ou servilismos. Só Deus é o Senhor e, a nenhuma outra causa, se deve submeter a nossa alma de Pastores.”

Após ressaltar que a Colômbia precisa da visão deles, própria de bispos, a fim de a apoiar na coragem do primeiro passo para a paz definitiva e a reconciliação, fez um convite à superação da miséria e da desigualdade.

«Não imaginava que fosse mais fácil começar uma guerra do que terminá-la», disse, citando o escritor colombiano, Nobel da Literatura (1982), Gabriel Garcia Marques.

A guerra deriva de quanto há de mais baixo no nosso coração, disse o Papa, acrescentando, “ao contrário, a paz impele-nos a ser maiores do que nós mesmos”.

“Colômbia precisa de vós para se reconhecer no seu verdadeiro rosto cheio de esperança não obstante as suas imperfeições, para se perdoarem uns aos outros não obstante as feridas ainda não totalmente cicatrizadas”, frisou Francisco.

A palavra da reconciliação

“Muitos podem dar a sua contribuição para os desafios desta nação, mas a vossa missão é peculiar. Não sois técnicos nem políticos; sois Pastores. Cristo é a palavra de reconciliação escrita nos vossos corações e tendes a força para a poder pronunciar nos púlpitos, nos documentos eclesiais ou nos artigos dos periódicos, e mais ainda no coração das pessoas, no santuário secreto das suas consciências.”

Francisco convidou ainda os bispos colombianos a manterem o olhar sempre fixo no homem concreto, lembrando que “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”.

Uma Igreja em missão

Antes de despedir-se, reconhecendo o generoso trabalho pastoral que realizam, apresentou-lhes alguns anseios que traz em seu coração de pastor, movido pelo desejo de os exortar a ser cada vez mais uma Igreja em missão.

Pediu atenção à família, à defesa da vida em todas as suas fases, manifestou preocupação pela chaga da violência e do alcoolismo, pela fragilidade do vínculo matrimonial e pelos tantos jovens ameaçados pelo vazio da alma.

Por fim, pediu aos bispos que sejam paternos para com seus sacerdotes vigiando sobre as raízes espirituais deles e cuidando da sua formação. Atenção também pelos consagrados e consagradas, pelos fiéis leigos.
Igreja na Amazônia

Por fim, um pensamento aos desafios da Igreja na Amazônia:

“Convido-vos a não abandonar a si mesma a Igreja na Amazônia. A consolidação dum rosto amazônico para a Igreja que peregrina aqui é um desafio para todos vós, que depende do crescente e consciencioso apoio missionário de todas as dioceses colombianas e de todo o seu clero. Ouvi dizer que, nalgumas línguas nativas da Amazônia, para referir a palavra «amigo», usa-se a expressão «o outro meu braço». Sede, pois, o outro braço da Amazônia. A Colômbia não a pode amputar, sem ficar mutilada no seu rosto e na sua alma.” (RL)

Fonte: Rádio Vaticano