Jovem da Diocese de Taubaté participa de experiência missionária na Amazônia

“A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas”, essas sábias palavras do nosso Papa Francisco retratam com exatidão o propósito dos missionários de nossa Igreja Católica, que deixam suas cidades, seus afazeres e suas famílias para partirem em Missão e levar a palavra de Deus a outra localidade, outro povo.

entrevista-labarofev2016-05Em nossa Diocese, desperta nos coração dos jovens a chama do ardor missionário. É o caso do jovem Fábio Henrique, 27, membro do Setor Juventude e do grupo juvenil denominado “Jovens Sarados”, do bairro Jaraguá Velho, em Taubaté.

Fábio foi um dos 25 jovens escolhidos de todo o Brasil para participar do “Missão Jovem na Amazônia”, projeto missionário da CNBB que visa despertar o jovem para a vivência da vocação missionária, convivendo, conhecendo, aprendendo e trocando experiências na realidade amazônica das comunidades ribeirinhas e indígenas.

Nesta entrevista vamos conhecer mais sobre esse jovem missionário e seu trabalho realizado na Amazônia, mais especificamente no Estado do Tocantins.

O LÁBARO – Fábio, como foi essa experiência de Missão? Como foi a sua chegada em Palmas (TO) e o início das atividades?

Fábio Henrique —Foi uma experiência maravilhosa! Saí de Taubaté no dia 4 de dezembro do ano passado com destino à Palmas (capital do Tocantins). Padre Cipriano Oliveira (Assessor do Setor Juventude da Diocese de Taubaté) deu todo apoio e suporte para que eu pudesse realizar essa experiência missionária. Chegando em Palmas fui recebido por uma equipe de seminaristas da diocese local, que me aguardava no aeroporto para me acolher e me levar para uma comunidade de vida, chamada “Sementes do Verbo”, onde foi feita a hospedagem de todos os jovens missionários vindos de todas as regiões do Brasil. Nesse local tivemos diversas formações com o Bispo de Palmas, Dom Pedro Brito Guimarães, de modo a nos preparar e nos informar sobre a região, seus costumes, sua população para que pudéssemos sair à campo em Missão pelas comunidades.

O LÁBARO – Qual a principal temática dessas formações? Qual missão lhe foi confiada?

Fábio Henrique – O bispo e diversos padres locais nos relataram sobre a realidade da população indígena da Amazônia, que é totalmente diferente da nossa realidade, conhecer seus costumes, de modo que ficássemos preparados para o choque cultural que iríamos presenciar. Mas a missão não era somente na comunidade indígena, as equipes de missionários foram divididas e parte delas foram para áreas rurais de Palmas, comunidades carentes da região e “Fazenda Esperança”, que realiza um belíssimo trabalho focado na recuperação de dependentes químicos.

Sobre a minha missão, foi designado para a equipe que iria para a área indígena. Foi uma expectativa e ansiedade muito grandes, pois fui informado que iria fazer missão com a comunidade indígena no mesmo dia em que iniciamos os trabalhos da Missão. Para esse lugar foram também outros três jovens missionários: um irmão do Piauí, uma irmã do Maranhão e outra de São Paulo, SP. Não os conhecia antes, fui ter contato com outros missionários somente na chegada em Palmas.

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O LÁBARO – Como foram esses primeiros momentos na aldeia indígena? Como era feita a locomoção (transporte) dos missionários para lá?

Fábio Henrique – Depois do período de preparação, na casa onde estávamos hospedados em Palmas, saímos num domingo de manhã com destino à cidade de Lajeado, que fica no interior do Estado. Lá foi celebrada uma Missa de Envio, onde fomos muito bem acolhidos pela comunidade local, e de lá foram divididas as equipes de missionários, cada uma foi enviada para um lugar específico. Minha equipe foi encaminhada para Tocantínia, cidade na qual estão instaladas as aldeias indígenas da região, que fazem parte da Reserva Indígena Xerente, totalizando 70 aldeias indígenas nesta localidade. Minha equipe ficou responsável para fazer Missão em quatro destas aldeias. Iniciamos o trajeto para as aldeias de ônibus. Num dado momento da viagem fomos transferidos para uma van, devido à situação da estrada e da longa viagem. Trajeto muito longo, rodeado pela floresta, acompanhado de muito calor e de toda a expectativa e ansiedade de se chegar às aldeias e iniciar a Missão. Onde fomos, éramos a primeira equipe de leigos que fez trabalho missionário no local, então, ao mesmo tempo em que estávamos alegres por estar chegando, rolava uma insegurança por não saber como seríamos recebidos pela comunidade. E ao chegar na primeira aldeia pude presenciar todo o choque de realidade do qual fui informado nas formações: as residências dos indígenas, a fisionomia peculiar deles, algo jamais visto por nós missionários.

Fomos muito bem acolhidos pelo Cacique Edson, e sua mãe Maria. Eles nos apresentaram toda a aldeia, o local onde iríamos dormir, nos alimentar, e tudo foi fluindo naturalmente, nos ambientando com o local e com as pessoas. Eu me senti muito bem, foi tudo tranquilo. Esperava até que a Missão fosse mais focada na evangelização, mas não, nós tivemos que nos adaptar para conviver com eles, para nos adequar ao estilo de vida deles. O povo indígena é um povo muito tranquilo, pacífico. Realizamos diversas atividades do dia-a-dia deles, como pescar, para nos ambientar ao ritmo de vida deles.

O LÁBARO – Como foram os dias em que ficou nas aldeias?

entrevista-labarofev2016-01Fábio Henrique – Apesar de tranquilo, tudo foi diferente. Os índios Xerente, tem uma língua própria, mas também falam Português. Mas as que eles mais utilizam é a língua Xerente, da qual estão mais habituados. Então levou um tempo para nos habituar com a língua deles, de dormir em redes, de tomar banho no rio. O interessante é que a água de lá é muito limpa, potável. A água do rio é tanto utilizada para banho quanto para beber. A alimentação deles também é diferente. Apesar de também consumirem arroz, os índios comem muito pequi, que é um fruto de uma árvore nativa e também se alimentam de peixes e de animais da floresta, eles praticam muito a caça. Então ora se alimentavam de carne de tatu, de porco-do-mato, etc… Uma coisa interessante é que, no café da manhã, eles se alimentavam de um cuscuz, semelhante ao que consumimos aqui no Sudeste, mas com ingredientes da região, além de uma farofa com carne seca.

Além da missão de evangelizar, tivemos também a missão de nos adaptar à rotina deles, aos seus costumes, de comer e de fazer higiene pessoal de um modo diferente do qual fomos criados e habituados, do modo indígena. Foi um desafio a mais, pois precisávamos estar mais inseridos na realidade deles para ajudá-los a compreender a palavra de Deus. Até palavras na língua deles (Xerente) aprendemos para facilitar a comunicação.

entrevista-labarofev2016-04O LÁBARO – Sabemos que nossa Igreja parte em Missão. Para você, como um missionário leigo, qual é o papel da Igreja dentro de uma aldeia indígena?

Fábio Henrique – O papel da Igreja nas aldeias é sempre evangelizar, mas a Igreja Católica tem um respeito muito grande pela cultura indígena. Durante nossa estadia na aldeia usávamos adereços de cabeça peculiares daquela aldeia, pintura de corpo de modo a nos inserirmos em sua cultura e entender seus significados. A Igreja Católica não tenta tirar nada do que é do índio, ela respeita. E tanto é assim que para realizarmos nossa Missão na Aldeia tivemos que viver como o índio vive. Isso para os índios trazia uma confiança enorme, assim como para nós missionários, pois assim tínhamos total liberdade, respeito e confiança para evangelizarmos e colocar em prática nosso trabalho missionário.

Hoje em dia o índio sofre um risco muito grande, que é o da urbanização. Além das coisas boas que vem para eles, como a Igreja, para trazer a palavra de Deus, trazendo o amor, mas vem também a tecnologia, situações que atrapalham e que desfiguram a cultura indígena. Tem aldeia com energia elétrica, tá chegando a televisão e aos poucos o índio está perdendo a sua característica, aquilo que o índio é de verdade. E o papel da Igreja é esse, tentar fazer que o índio seja índio, mas conhecendo Deus, conhecendo sua Palavra.

entrevista-labarofev2016-02O LÁBARO – Quais foram os ensinamentos que você trouxe dessa experiência missionária? Deixe um recado para os jovens que tem interesse em sair em Missão.

Fábio Henrique – Os ensinamentos que tive nessa missão foram inúmeros. Mas o recado que posso deixar para todos é de o que eu vivi lá me ensinou que somos todos iguais, independente de cultura, raça e classe social. Sou daqui de Taubaté e vivi por uma semana numa aldeia indígena. Lá todos vivemos como irmãos, com muito respeito e laços de amizade. Uma lição que os índios nos dão é o amor pela família. Marido e mulher se respeitam, convivem juntos, estão sempre juntos com seus filhos, passeiam, estão a todos os momentos juntos. E isso na nossa região está se perdendo muito, pai e mãe estão de um lado, os filhos já não acompanham mais os pais, devido á tecnologia e muitas outras coisas que separam a família, é um grande ensinamento para nós!

Um recado que dou em especial para os jovens é que em você desperte a coragem de procurar na sua igreja, perto de sua casa, em sua comunidade um lugar para você começar sua caminhada de serviço, de aprendizagem. Vá, não tenha medo! Deus tem um propósito na sua vida, que é de te fazer um jovem missionário, um jovem que vai servir ao próximo! Quem sabe você não será o próximo missionário que estará evangelizando na Amazônia?

Por André Somensari, com colaboração de Manoel Paiva e Camille Prince (JuvTv)

Fonte: O Lábaro – fevereiro/2016

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