Importância do Silêncio na Liturgia

Estamos em um mundo agitado e barulhento. Desacostumados ao silêncio que foi próprio de um distante período de nossa história humana, hoje temos a natural tendência de buscarmos “nos conectar”. Tempo ocioso é tempo perdido, ensina o mundo, e por isso temos que nos ocupar e nos comunicar.

Pensando dessa maneira nós negamos o primeiro dos princípios da comunicação interpessoal: para estabelecer diálogo não se pode apenas falar. Só fala bem aquele que sabe ouvir e para ouvir é preciso silenciar.
Preste atenção em seus relacionamentos. Quando alguém está falando contigo você fica realmente em silêncio ou você se cala apenas exteriormente? Não é incomum acontecer fazermos silêncio para ouvir alguém e, internamente, já iniciarmos o processo de argumentação para darmos prosseguimento à conversa. Em si este processo é natural, mas com a correria do mundo moderno nós nos ocupamos tanto com aquilo que queremos dizer que nem ouvimos o que nosso companheiro acabou de nos dizer. Em outras palavras, não fizemos verdadeiro silêncio.

A falta de silêncio, além de impedir um verdadeiro diálogo, ainda se torna uma atitude desrespeitosa para com nosso interlocutor. É como se disséssemos: “o que eu tenho a dizer é mais importante do que aquilo que você tem a me falar!”.
O que vale para nossos relacionamentos interpessoais vale igualmente para nossa oração pessoal e para as celebrações litúrgicas, que são, eminentemente, relacionamento dialógico entre Deus e o seu povo. Em cada liturgia, o Senhor Jesus tem algo a nos falar. Ao discípulo cabe ouvir seus ensinamentos, suas exortações à conversão, seu incentivo à esperança e demais virtudes, etc. Todavia, sem o devido silêncio, nossas celebrações se tornam apenas palavrório, tanto dos ministros que falam ao povo quando do povo com os ministros que falam a Deus, mas muito pouco espaço sobra para que o Senhor mesmo nos fale ao coração.

Há, portanto, a urgência de um silêncio exterior, tanto anterior quanto durante nossas liturgias. E a vocês leigos e a nós, ministros ordenados, fica uma recomendação: desliguemos nosso telefone celular durante a celebração. Na próxima hora, talvez uma hora e meia, dedique plenamente seu tempo ao Senhor, sem a interferência de outras informações. Certamente elas são importantes, mas não mais do que a presença confortadora do Senhor Jesus.
Aos ministros ordenados e leigos, no exercício dos diversos ministérios ligados à liturgia, um pedido: cuidemos do silêncio e da discrição nos preparativos imediatos à celebração. Quanto antes chegarmos à igreja para prepararmos o ambiente, conferirmos a leitura que será proclamada, afinarmos os instrumentos musicais e microfones, etc, mais cedo tudo estará no seu devido lugar. Assim, os fiéis que chegarem à igreja para sua oração pessoal antes da celebração encontrarão um ambiente silencioso e propício para o diálogo com Deus.

Por fim, na celebração litúrgica, os momentos de silêncio durante o ato penitencial, antes das leituras, após a proclamação do Evangelho e da homilia e principalmente após o momento da comunhão não são “intervalos vazios” à espera de algo que deveria estar acontecendo e que a inadvertência de algum ministro causou este “vácuo”. Não se trata de “tempo perdido” – muito pelo contrário! Estes instantes de silêncio querem ser oportunidade para falarmos pessoalmente ao coração de Deus e principalmente deixar que o coração de Deus fale ao nosso.

O papa Bento XVI explicitou tudo o que foi desenvolvido neste artigo em uma citação da Exortação Apostólica Verbum Domini (nº 66): “A palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio, exterior e interior. O nosso tempo não favorece o recolhimento e, às vezes, fica-se com a impressão de ter medo de se separar, por um só momento, dos instrumentos de comunicação de massa. Por isso, hoje é necessário educar o Povo de Deus para o valor do silêncio. Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher indivisivelmente da Palavra e do silêncio. As nossas liturgias devem facilitar esta escuta autêntica. Que este valor brilhe particularmente na Liturgia da Palavra, que ‘deve ser celebrada de modo a favorecer a meditação’. O silêncio, quando previsto, deve ser considerado ‘como parte da celebração’. Por isso, exorto os Pastores a estimularem os momentos de recolhimento, nos quais, com a ajuda do Espírito Santo, a Palavra de Deus é acolhida no coração”.

Despedida

Com muita alegria e disposição em servir assumi, em novembro de 2011, a assessoria da Comissão Diocesana de Liturgia de nossa Diocese de Taubaté. Foram 4 anos intensos, contando principalmente com a parceria dos inúmeros coordenadores paroquiais de liturgia que fielmente compareciam às reuniões mensais e demais eventos promovidos pela Comissão Diocesana para momentos formativos, informativos e de fraterna troca de experiências. Foram 37 artigos para o Jornal “O Lábaro”, a quem muito agradeço por veicular as reflexões sobre a liturgia e seus diversos ministérios.

A partir de 2016 retorna à assessoria diocesana o Pe. Kleber Rodrigues da Silva. Ele é velho conhecido da Comissão, tanto por ter assessorado a Diocese no período que me antecedeu, quanto por ter todo o seu percurso ministerial envolvido pelo amor e dedicação à organização da Pastoral Litúrgica desde o âmbito paroquial até o Regional Sul 1 (Estado de São Paulo). Ao Pe. Kleber, retornando à sua antiga função, nossas boas-vindas e votos de eficaz missão!

Pe. Roger Matheus dos Santos

Fonte: Jornal O Lábaro – dezembro/2015

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