Associações, Movimentos e novas comunidades

A Santa Sé, através da Congregação para a Doutrina da Fé, no último mês de maio, apresentou ao Santo Padre o Papa Francisco uma carta dirigida a todos os Bispos da Igreja Católica. A carta trata da relação entre dons hierárquicos e carismáticos e, mais especificamente, aborda a questão das associações de fiéis, movimentos eclesiais e novas comunidades. Essa carta que o Papa aprovou e ordenou sua publicação é intitulada Iuvenescit Ecclesia, a seguir indicada aqui como IE. Essa Carta mostra como a Igreja rejuvenesce pela força do Evangelho e como a ação do Espírito Santo a renova continuamente com diversos dons hierárquicos e carismáticos. Os dons hierárquicos são constituídos pelo sacramento da Ordem e referem-se a dons de governo da Igreja.Os dons carismáticos são graças particulares que o mesmo Espírito Santo concede em vista da santificação da pessoa e da comunidade (sobre isso, pode-se ver: I Cor, 12).

Ao longo da história da Igreja, a partir de dons e carismas, tendo em vista a evangelização e a vivência da fé, surgiram numerosas agregações eclesiais que constituem grande fonte de renovação para a Igreja. Além das realidades associativas tradicionais como são os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, juntam-se outras realidades mais recentes como são as associações de fiéis, os movimentos eclesiais e as novas comunidades, que floresceram, sobretudo, após o Concílio Vaticano II. Essas realidades associativas surgem com a intenção de incrementar a vida de fé, esperança e caridade, fomentar a vivência da comunhão e o empenho à missão, exprimindo assim a dinâmica própria da Igreja. Nesse sentido o papa João Paulo II denominou essas novas formas associativas como “resposta providencial” suscitada pelo Espírito Santo, em vista à evangelização em nossos tempos. O mesmo Pontífice também afirmava que se abre para essas novas agregações de fiéis o tempo favorável e necessário da “maturidade eclesial” e isso implica sua plena valorização e inserção “nas Igrejas locais e nas paróquias, permanecendo sempre em comunhão com os Pastores e atentas às suas indicações” (discurso vigília Pentecostes, maio 1998).

A carta IE apresenta como fundamentação aquilo que o Novo Testamento, o Magistério Eclesiástico e a teologia ensinam sobre os dons hierárquicos e carismáticos e como se relacionam na vida e na missão da Igreja. Essa temática é muito ampla para ser abordada em um artigo, mas seria interessante considerá-la, mais detidamente, numa oportunidade de estudo, o que recomendo e peço que seja feito.

Os dons hierárquicos são exercidos por aqueles que recebem o sacramento da Ordem (diáconos, presbíteros e bispos); por eles é garantida a oferta da graça de Cristo a favor de todo o Povo de Deus. Os dons carismáticos, porém, são distribuídos pelo Espírito Santo “como lhe apraz” (ICor 12,11) a fim de que a graça sacramental produza frutos diversificados na vida dos fiéis e comunidades. Os movimentos eclesiais e as novas comunidades são o exemplo de como um determinado carisma “pessoal” pode agregar fiéis em “famílias espirituais” e ajudá-los a viver a própria vocação cristã e a missão da Igreja. Ao adquirirem dimensão comunitária é necessário que os carismas sejam submetidos ao reconhecimento e regulamentação da Igreja a fim de que sua riqueza se articule adequadamente na comunhão eclesial e se transmita fielmente com o passar dos tempos. Aqui se coloca a tarefa decisiva de discernimento que pertence à autoridade eclesiástica (cf. Lumen Gentium 12). Justamente por serem de origem divina os carismas não dispensam aqueles que os recebem da obediência eclesial, nem lhes confere autonomia na Igreja. Exemplo disso, vemos na ação dos apóstolos que intervém com autoridade para estabelecer regras precisas sobre o exercício dos carismas na Igreja (I Cor 14, 19.28). O discernimento da autoridade eclesiástica se verifica em relação à autenticidade do carisma e da credibilidade da pessoa que o recebeu. Antes de conceder reconhecimento eclesial a um grupo que se orienta por um carisma, cabe à autoridade eclesiástica acompanhar, benevolamente, por meio de longo processo que se estende no tempo e que requer etapas adequadas de autenticação, passando por criterioso discernimento. Esse tempo de acompanhamento é necessário a fim de que haja experimentação e consolidação que vá além do entusiasmo inicial, até chegar a uma configuração estável, segundo os parâmetros eclesiais.

No próximo artigo continuaremos o assunto considerando os critérios a serem utilizados pela autoridade eclesiástica em vista o discernimento e o reconhecimento dos carismas.

Dom Wilson Angotti
Bispo da Diocese de Taubaté

Fonte: Jornal O Lábaro – edição agosto/2016

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