A vida, a morte e a vida

Na constituição fundamental de todo ser vivo há o fato da morte. Quanto a nós, humanos, tal fato ganha contornos desconcertantes, pois somos os únicos capazes de dar inteligibilidade à vida e, por extensão, à morte. Entende-se porque o morrer humano seja tão ameaçador e obscuro, justamente pelo fato de evidenciar materialmente uma percepção de fim absoluto que se opõe à expectativa existencial de transcendência, que na linguagem religiosa se expressa na firme convicção da ressurreição. Já o animal morre menos mortalmente que o humano, falta-lhe a consciência da realidade.

A vida, sempre dom, é acolhida na condição de despertar a alegria que subsidia a existência. A morte é acolhida pela força inerente de sua presença, que traz à consciência do ser a percepção inequívoca de seu limite, como expressão mais eloquente do “ser que não é mais”, do fim. A morte, ainda que intuída como possibilidade – uma possibilidade potencializada a se tornar ato – gera desconforto e angústia. Mais ainda, a morte figura como um alerta que categoriza a vida no espectro da finitude.

Vida e morte são duas certezas, aparentemente contraditórias e profundamente complementares, que animam nosso ser e configuram nossa existência: viver é morrer e morrer é viver. Nossa existência é marcada por uma tensão interna, uma dialética aberta ao infinito que nos faz olhar o mundo com a certeza da sua e da nossa transitoriedade e, ao mesmo tempo, firmar a fé na eternidade.

Nós reconhecemos a nossa finitude. O limite natural de existência breve, marcado pela temporalidade, vivido com os fardos próprios de uma criatura que experimenta a vida nos seus diversificados momentos, tergiversando a alegria das vitórias e a amargura das frustrações. Mas também nos persegue a certeza do além! Nossa existência é aberta para eternidade contida numa promessa de vida que nos faz ser mais do que nossos limites, dando-nos a convicção de que ainda estamos aquém do que podemos ser. E por isso acreditamos que essa existência é propedêutica daquela que estar por vir.

A cultura de supervalorizar a vida cada vez mais no molde da imanência e no âmbito da corporeidade, vinculada a sua expressão puramente material, cria uma crescente dificuldade de aceitar a realidade da morte. O corte histórico da cultura ocidental, jogando para os “porões do obscurantismo” a capacidade humana de pensar transcendentemente, gerou a falsa sensação de eternidade dentro dos limites do espaço e do tempo, ou seja, a sensação de uma durabilidade da existência inserida na imanência da história.

Isso ajuda a entender todo o aparato da medicina estética em promover o sonho da eterna juventude. Na mesma linha, se entende também a tecnologia que artificializa a existência por semanas, meses ou anos, de um corpo “quase-morto” que prende uma existência irreversivelmente atrofiada.

Até mesmo no nível religioso, um dos poucos espaços aonde ainda é possível pensar para além dos limites do mundo, também ali se percebe, na manifestação de diversos ritualismos, formas de prender na imanência aqueles que já estão além ou fora do espaço e tempo.

Viver e morrer constituem duas faces de uma mesma realidade, a existência. E uma não existe sem a outra. Só morre quem vive, só vive quem morre. A cada minuto computado em nossa história sentimos a vida crescer e fluir, desvelando nossa existência. E a cada minuto vivido é um minuto morrido. Aquele tempo foi e não volta. Por isso é importante viver cada instante, não como se fosse o último, mas como se fosse único, porque é. Pior que viver e morrer a cada minuto é passar esse tempo sem ter noção e razão do que aconteceu. A vida e a morte perdem sentido. Viver sem sentido é morrer sem sentido. E sentido tem haver com felicidade.

Contemplando a existência notamos que o caminho da felicidade não se encontra no anseio da “eternidade imanente”, o que redundaria na expressão mais pura do egoísmo. Para o religioso a vida é um dom, para o cético é fruto do acaso. Tanto para um como para outro o que resta é viver. E se não nos é próprio ter autonomia sobre o princípio do nosso “vir a ser no mundo”, é também plenamente aceitável saber que não há possibilidade de autonomia para evitar o nosso “vir a não ser”. Essa caracterização óbvia aponta dois caminhos: ocupar-nos de viver ou ocupar-nos de morrer. Tanto um como outro leva ao mesmo fim. A diferença está justamente no espaço intermediário. Parece bem mais lógico nos ocupar de viver. Ocupar-nos de viver, conscientes da finitude da existência, gera a libertação do medo do fim, uma vez que se conhece aquilo que se espera, mas não se vive esperando o que é esperado. Chega-se ao fim, na contra-mão de sua expectativa, ou seja, vivendo. E quem morre vivendo, vive eternamente.

Pe. Marcelo Batalioto